Num momento em que o processo de vacinação já começou em, pelo menos, 77 países e territórios, o mundo verificou um ponto de inflexão no combate contra a pandemia esta quinta-feira: há mais pessoas vacinadas do que infetadas pelo vírus que varreu o mundo no ano passado.

Este marco baseado em dados disponibilizados pela Reuters tem, porém, o senão de que a maior parte dos vacinados pelo globo apenas tomaram ainda a primeira dose das vacinas mRNA. Um facto que nos remete para questões relacionadas com a ordem da vacinação e com a quantidade disponível de vacinas que, em vários países, tem sido escassa.

No âmbito de colmatar uma carência previsível durante o ano, dois trabalhos científicos foram realizados para tentar perceber quando e como as pessoas que já foram infetadas pelo vírus devem ser vacinadas.

Através da análise aos anticorpos naturais criados por voluntários previamente infetados, ambos os estudos concluíram que este grupo populacional precisa apenas de uma dose de vacina de mRNA - como a da Moderna e da Pfizer -  para ser imunizado.

Isto acontece porque, segundo os estudos, estas pessoas têm uma maior quantidade de proteínas do sistema imunológico capazes de neutralizar o vírus, mais do que as pessoas que nunca foram infectadas e que receberam as duas doses prescritas.

 

 

 

Os dois trabalhos, apresentados ainda na sua versão preliminar, realizaram-se nos Estados Unidos. O primeiro centra-se na imunidade de profissionais de saúde em hospitais, alguns com infecção confirmada de SARS-CoV-2 e outros sem. Após a primeira dose de uma vacina de mRNA, os primeiros desenvolveram níveis de anticorpos significativamente mais elevados do que os seus pares que receberam as duas injeções.

O segundo estudo, liderado pelo virologista Florian Kramer, da Escola de Medicina do Mount Sinai Hospital, em Nova Iorque, estudou 109 pessoas com e sem infeção prévia confirmada. Após a primeira dose, aqueles que já tinham sido infetados geraram entre 10 a 20 vezes mais anticorpos neutralizantes para o novo coronavírus. 

Mesmo após o outro grupo ter recebido a segunda dose, os níveis de anticorpos dos já infectados eram 10 vezes maiores.

Os cientistas argumentam que, para os previamente infetados que já receberam a primeira dose da vacina, ela atua, na verdade, como uma dose de reforço. Uma espécie de lembrete para o sistema imunológico se recordar do patógeno e desenvolver uma resposta mais poderosa do que aqueles vacinados que nunca foram infectados. 

Ambos os estudos recomendam que, à luz desses dados, os protocolos de vacinação devem ser modificados para que as pessoas já infetadas sejam as últimas a serem vacinadas e apenas com uma única dose. Uma indicação que libertaria muitas doses preciosas em contexto de escassez generalizada de vacinas.

Ainda há muitas incógnitas sobre quanto tempo dura a imunidade tanto da infeção natural, como da gerada pela vacinação, bem como o que isso significa no que diz respeito à possibilidade de uma reinfeção.

De acordo com um estudo da agência de Saúde Pública de Inglaterra, a maioria das pessoas que tiveram covid-19 registam uma imunidade média de 83% à doença durante pelo menos cinco meses, mas podem ser reinfetadas e transmitir o vírus. 

De acordo com os investigadores deste mecanismo governamental, entre os 6.614 voluntários que tinham anticorpos, apenas 44 desenvolveram uma infeção "potencial". Paralelamente, o estudo concluiu também que a infeção proporciona 94% de proteção contra a reinfeção sintomática e 75% de imunidade contra a reinfecção assintomática.