Não será em maio, nem no verão: o regresso à normalidade pós-pandemia de Covid-19 acontecerá dentro de um ano, com ou sem vacina, e depois de duas a três ondas da doença, antecipa um dos maiores especialistas mundiais em vírus. 

O espanhol Adolfo García-Sastre, professor catedrático de medicina e microbiologia num dos melhores hospitais do mundo, o Mount Sinai, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, acredita também que haverá dez vezes mais casos de infeção do que aqueles que conhecemos.

Em entrevista à imprensa do seu país, desde a cidade que nunca dorme, o conceituado microbiólogo, que conseguiu, entre muitos feitos, reproduzir o vírus da mortífera gripe espanhola (1918) para poder estudá-lo, diz que tudo depende, para já, do número de infetados e da descoberta de uma vacina, que é sempre um processo moroso.

Erradicar o vírus é impossível. Teria de haver uma vacina muito boa e uma vacinação em massa, em todo o mundo. E isso é muito difícil de implementar. Lutamos há décadas para erradicar o sarampo e a poliomielite, doenças para as quais existem vacinas, e não conseguimos. Infelizmente, mesmo que tenhamos uma vacina, não poderemos erradicá-lo. O que será possível é que o vírus circule em grupos de menor risco, os mais jovens, pessoas que nasçam depois desta pandemia. Com a gripe pandémica isso leva cerca de um ano e, geralmente, são necessárias duas ondas, às vezes três. Acredito que haverá duas ondas, talvez três. Daqui a um ano, mesmo que não haja vacina, 40% a 50% da população mundial terá sido infetada, o que dará lugar a que o vírus refreie a sua propagação. Tudo depende do número de infetados em cada onda. Quanto mais gente for contagiada na primeira, haverá menos na segunda e vice-versa", explicou.

E, qualquer que seja o cenário, há que manter a cautela, concretamente ao nível do distanciamento social.

A pandemia estará resolvida dentro de um ano, mais ou menos, mesmo sem vacina. Dentro de um ano poderemos começar a levar uma vida normal. Haverá infeções, mas será mais fácil controlá-las. Quando o número de infeções começar a diminuir, é importante não cantar vitória e não sairmos logo todos à rua, porque é fácil que o vírus volte a atacar. Teremos de voltar à vida normal aos poucos e estar preparados para isolar as pessoas novamente se for necessário", explicou, em entrevista ao El País.

Adolfo García-Sastre, diretor do Instituto de Saúde Global e Patogénicos Emergentes (na tradução literal) do Hospital Mount Sinai, lembra que o número de casos positivos conhecidos "depende dos testes realizados em cada país".

"Quando aparecem casos do nada, sem que saibamos quem pode ter infetado quem, sabemos que tem de haver mais alguém contagiado que não foi detetado", observou, sublinhando, por isso, que "deve haver dez vezes mais casos do que aqueles que conhecemos".

Num mundo perfeito, "todos faríamos o teste a cada dois dias com um dispositivo pessoal", o que num mundo imperfeito "é impossível".

No início da epidemia, quando há poucos casos, é importante saber quem está infetado para poder interromper a cadeia de contágios. Para isso, é preciso fazer testes de forma muito agressiva em todos os contatos de uma pessoa infetada. Quando o vírus já está muito disseminado, isso não ajuda tanto. Se, por exemplo, 1% da população tiver o vírus, muitos casos escaparão. Por esta altura, o importante é o isolamento social, para prevenir os contágios", apontou.

O que falhou, então, para que o mundo esteja em confinamento e na iminência de uma grande crise económica? Adolfo García-Sastre, que não tem dúvidas de que o SARS-CoV-2 "surgiu na Natureza", não sendo, por isso, um vírus de laboratório, lembra também que os governos sabem que estas pandemias podem acontecer.

O principal problema não é tanto se as medidas de contenção foram tomadas mais cedo ou mais tarde. Isto vem de muito antes. Sabemos que, em relação à gripe, ocorrem a cada 20 ou 30 anos e que têm uma severidade semelhante à atual. Mas não nos preparamos para elas. Não temos camas suficientes, nem pessoal, nem material. Não é um problema do governo atual ou do anterior, é de todos os governos", considerou.

E, como tal, a seguir a esta "haverá outra pandemia, provavelmente de gripe".

O importante é termos, desde já, orçamentos para detê-la. Os governos devem investir contra as pandemias o mesmo que gastam em Defesa. Para a guerra ou para a defesa gasta-se muito dinheiro em armamento que, no final, não é usado, mas é considerado necessário no caso de haver um ataque. Com isto é igual: uma pandemia tem quase mais probabilidade de nos afetar do que uma guerra. Devemos ter capacidade hospitalar e serviços caso aconteça uma nova", defendeu.

A pandemia de Covid-19 já matou mais de 167.000 pessoas e infetou mais de 2,4 milhões em todo o mundo desde dezembro, depois de ter surgido na China.

Catarina Machado