Duas equipas de cientistas da Noruega e da Alemanha acreditam ter identificado a relação causal que pode levar a vacina da AstraZeneca a causar coágulos sanguíneos potencialmente mortais em casos raros.

Os dois trabalhos de investigação apresentam também um possível tratamento para estes sintomas, sublinhando que a vacina pode desencadear uma reação auto-imune, provocando coágulos sanguíneos no cérebro.

A descoberta apresentada em dois estudos separados pode oferecer uma explicação para os cerca de 25 incidentes desta natureza, avaliados pela Agência Europeia do Medicamento. 

Um dos trabalhos surgiu do hospital universitário Greifswald, no norte da Alemanha, que mostra como a vacina da AstraZeneca causou eventos tromboembólicos raros no cérebro em um pequeno número de pacientes.

A descoberta significa que um tratamento direcionado, através de um medicamento comum, pode ser administrado aos pacientes que sofreram coagulações semelhantes. 

Os investigadores alemães sublinharam, no entanto, que o tratamento só seria possível em pacientes onde surgissem coágulos sanguíneos, e não como um tratamento preventivo.

Esta informação, reporta o hospital universitário, foi partilhada com hospitais em toda a Europa.

Num comunicado após a divulgação desta informação, a  Associação Alemã de Investigação para Trombose e Hemostasia disse que sintomas como dor de cabeça contínua, tontura ou visão turva por mais de três dias após a vacinação necessitam de exames médicos adicionais.

Da Escandinávia, o professor e investigador Pål Andre Holme disse ao jornal norueguês VG today que a razão pela qual os coágulossão formados em pacientes inoculados foi “descoberta”.

Holme, que é fisiologista, liderou a investigação para descobrir a razão pela qual três profissionais de saúde com menos de 50 anos foram hospitalizados com graves coágulos sanguíneos e baixos níveis de plaquetas depois de terem tomado a vacina AstraZeneca. Um dos profissionais de saúde chegou mesmo a morrer na segunda-feira.

Os especialistas trabalharam com a teoria de que foi na verdade a vacina que desencadeou uma resposta imune inesperada e poderosa - uma teoria que acreditam ter agora confirmado.

A nossa teoria de que esta é muito provavelmente uma resposta imunológica poderosa que provavelmente foi causada pela vacina foi comprovada”, disse Holme ao jornal nacional.

Em colaboração com especialistas na área do Hospital Universitário do Norte da Noruega, a equipa coordenada por Holme identificou anticorpos específicos contra as plaquetas sanguíneas que podem causar as reações. É um efeito que “conhecemos de outras áreas da medicina, mas com medicamentos como a causa da reação ”, explica o médico.

Questionado sobre se está absolutamente confiante sobre a sua teoria, Holme reitera que sim.

Nós temos o motivo”, afirma, “só a vacina pode explicar porque estes indivíduos tiveram este tipo de resposta imunológica ”.

Holme explica ainda o porquê de a resposta imunitária não ter sido causada por outra coisa que não a vacina da AstraZeneca. “Não há nada na história clínica dos pacientes que possa ter provocado uma resposta imunológica tão poderosa. Tenho certeza de que os anticorpos que encontrámos são a causa e não vejo outra explicação além de ser a vacina que a desencadeia ”, responde.

Quinta-feira, em Amesterdão, a EMA assegurou que a vacina da AstraZeneca “é segura e eficaz” e garantiu que não está também associada aos casos de coágulos sanguíneos detetados que levaram à suspensão do seu uso. 

O Comité de Avaliação dos Riscos em Farmacovigilância chegou a uma clara conclusão na investigação dos casos de coágulos sanguíneos: esta é uma vacina segura e eficaz”, declarou a diretora executiva da EMA, Emer Cooke, falando em videoconferência de imprensa a partir da sede do regulador. 

Depois de uma investigação dos especialistas do regulador europeu nos últimos dias, Emer Cooke garantiu que a administração da vacina da AstraZeneca “não está associada a um aumento do risco de eventos tromboembólicos responsáveis pelos coágulos sanguíneos” nalguns dos vacinados com este fármaco.