A pandemia de Covid-19 já se tornou uma ameaça global, e a comunidade internacional concorda que o perigo só estará controlado quando houver uma vacina que possa ser comercializada e distribuída junto das populações populações.

Em Portugal, o Governo já admitiu que muitas das restrições e regras de segurança, como o uso de máscara, poderão só ser levantadas quando houver uma proteção eficaz.

Mas nem todos concordam com a necessidade da vacina, o que já está a intensificar uma "guerra" entre os grupos pró e antivacinas. Investigadores da Universidade George Washington, da cidade de Washington, conduziram um estudo em que analisam a "competição" dos grupos que defendem as vacinas e dos seus oponentes. A pesquisa, que teve como base os grupos e a interação no Facebook, foi publicada na revista Nature.

Entre as teorias defendidas pelos grupos antivacinas está a tese de que os cientistas querem utilizar as injeções para implantar microchips na população. Alguns vão mais longe, e afirmam que, relativamente à doença Covid-19, uma mulher que participou num estudo preliminar no Reino Unido terá morrido depois de ter aceitado levar uma vacina experimental. Os cientistas responsáveis pelo estudo da Universidade George Washington afirmam que ambas as hipóteses são falsas.

A investigação avança que, apesar de a generalidade das pessoas apoiar programas de vacinação, os movimentos antivacinas conseguem ter um grande raio de alcance, algo que também se está a verificar com o novo coronavírus, que tem captado grande parte das atenções.

O professor Neil Johnson, que analisou as táticas daqueles que fazem campanhas contra as vacinas, refere que este tipo de grupos está, atualmente, muito focado na doença Covid-19: "Para muitos deles, é tudo sobre Covid-19".

Pequenos em tamanho, este tipo de grupos beneficiam de uma eficaz estratégia de comunicação online, sobretudo em plataformas como o Facebook. Ainda antes de ser conhecido este novo vírus, a equipa de investigadores analisou a prevalência de grupos antivacinas naquela rede social, e concluiu que existiam mais de 1.300 páginas, as quais juntavam cerca de 85 milhões de pessoas.

O maior alcance deste tipo de grupos tem que ver com a associação que é feita com outras comunidades, nomeadamente a escolar, onde muitos pais se apresentam indecisos quanto à opção de vacinarem as suas crianças. Existem outros fatores mais concretos que explicam esta prevalência, e que estão explicados abaixo.

Em sentido contrário vão os grupos considerados pró-vacinas, que apresentam argumentos científicos factuais para defenderem a sua posição. Segundo os investigadores, estes grupos estão a perder a "luta" nas redes sociais, até porque parecem, diz o estudo, "disconectados do 'campo de batalha'".

Com efeito, e tomando como comparação um surto de sarampo surgido em 2019, foi possível verificar que as páginas antivacinação no Facebook cresceram mais do que aquelas que defendem a imunização.

Os investigadores apontam para a possibilidade de, num espaço de 10 anos, os grupos e as interações de conteúdos antivacinas poderem dominar a discussão nas redes sociais.

A comunidade pró-vacina fica presa à sua narrativa e fala apenas entre si, não conseguindo chegar a outros grupos, onde estão pessoas indecisas", afirma Heidi Larson, diretora do Vaccine Confidence Project, um grupo que monitoriza a confiança pública nas vacinas, e que faz parte da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

O estudo realizado pela Universidade George Washington acrescenta que a questão não se extingue no Facebook, e pode mesmo chegar a outros serviços online, como é o caso das aplicações de conversação, como o Whatsapp. 

Para Bruce Gellin, do Instituto de Vacinas Sabin, para se entender o problema, é preciso perceber quais as conversas e os conteúdos presentes nos grupos antivacinação.

O gráfico acima, parte do estudo publicado na Nature, descreve a prevalência destes grupos no Facebook, mostrando como, apesar de terem menos indivíduos, os grupos antivacinação conseguem um maior alcance. Com efeito, o número de clusters (concentração de pessoas) gerado por estas páginas é mais do dobro em relação às que defendem as vacinas.

Como é supracitado, o grupo de pessoas indecisas (a maior comunidade existente naquela rede social) tem tendência a receber mais conteúdos das páginas que são contra as vacinas.

A explicação em sete razões

Segundo o estudo publicado na revista Nature, o facto de a comunidade antivacinas estar à frente nesta "guerra" online, está relacionado com sete razões: posicionamento; atividade dos indecisos; número de clusters; conteúdo; surtos; expansão; geografia.

Posicionamento

Já vimos que o número de clusters é essencial, e os investigadores apontam que esse parâmetro permite aos grupos antivacinação gerar um melhor posicionamento na comunidade. Isso permite uma maior prevalência destes grupos junto daqueles que estão indecisos, que vão, por isso, ter muito mais contacto com conteúdo de antivacinação.

Na prática, isto significa que a comunidade pró-vacinação podem esgotar-se em si mesma, nunca chegando a atingir o ponto central da discussão. Segundo os investigadores, isto faz com que estes grupos nunca saiam de uma "área de conforto", o que lhes dá uma falsa sensação de estarem a ganhar a discussão, quando, na verdade, não estão sequer no seio da mesma.

Distribuição de Clusters: a vermelho os grupos antivacinação, a azul os pró-vacinação e a verde os indecisos

Como podemos ver na imagem acima, os grupos pró-vacinação (representados a azul) estão muito mais longe do "centro da discussão". Em contraste, os grupos antivacinação (representados a vermelho) estão muito mais conectados com os indecisos (representados a verde).

Atividade dos indecisos

O segundo fator apontado pelo estudo tem que ver com os indecisos. Este grupo representa a esmagadora maioria na discussão, e pode ser fulcral na vitória de um dos outros dois grupos.

Apesar de indecisos, estes internautas revelam uma grande atividade no Facebook, e são eles quem gera grande parte dos links externos à discussão.

A evidente aproximação deste grupo à comunidade antivacinação (visível no gráfico) faz, aparentemente, com que a discussão esteja a ser vencida por este segundo grupo.

Número de clusters

Em terceiro lugar, o facto de os grupos de antivacinação formarem mais de metade dos clusters daqueles que são pró-vacinação significa que estes geram uma maior quantidade de conteúdos e de sites relacionados do que os seus oponentes.

Isto significa que os grupos que são contra as vacinas têm uma maior capacidade de se infiltrarem nas outras comunidades, nomeadamente na dos indecisos.

Conteúdo

O quarto ponto está relacionado com análise qualitativa que foi feita pelos investigadores, e que concluiu que os grupos antivacinação têm uma oferta muito mais vasta de narrativas, que misturam tópicos como a segurança, as teorias de conspiração ou as hipóteses de medicina alternativa. Com o aparecimento da doença Covid-19, surgiu um quarto tópico, as dúvidas levantadas quanto à causa e à cura do novo coronavírus.

Em contraste, as narrativas dos grupos pró-vacinação são muito mais monotemáticas.

Surtos

Baseando-se no surto de sarampo ocorrido em 2019, os investigadores concluíram que a comunidade antivacinação teve um crescimento, enquanto o contrário aconteceu com os grupos pró-vacinação.

Os dados apontam que alguns cluster antivacina cresceram mais de 300% nessa altura, enquanto aqueles que defendem a vacinação nunca cresceram mais de 100%.

O estudo aponta que este é mais um sinal de que a população antivacinas consegue atrair mais indecisos, devido à maior prevalência de clusters.

Expansão

Grande parte dos clusters dos grupos antivacinação consegue chegar a quase todas as comunidades, enquanto os pró-vacinação passam despercebidos nas redes, além de que os seus clusters são mais pequenos.

A investigação revela que maiores clusters atraem mais pessoas, pelo que os grupos pró-vacinas têm mais dificuldade em captar utilizadores.

Geografia

Por último, os cientistas apontam a geografia como mais um fator a favor da população antivacinas. Esta comunidade consegue gerar interação, não só ao nível local ou nacional, mas também no espectro internacional, intensificando a ação de campanha junto de vários clusters globais.

António Guimarães