Cerca de quatro meses antes de o mundo fechar completamente por causa de um vírus que, mais de um ano depois, ainda coloca um leque variado de questões à comunidade científica internacional, foi apresentado um vasto relatório que atribuiu aos países uma classificação relacionada com a sua capacidade de enfrentar uma crise de saúde pública.

O primeiro lugar foi atribuído aos Estados Unidos. O Reino Unido ocupava o segundo lugar, seguido pela Holanda. A Portugal, o pior país em termos de mortos e casos por milhões de habitantes, foi atribuído o 20.º lugar, à frente do Brasil, Áustria, Japão e Irlanda.

O Índice Global de Segurança na Saúde (GHS) foi elaborado pela Universidade Johns Hopkins University, pela Nuclear Threat Initiative e contou com a colaboração da Economist Intelligence Unit.

Menos de dois meses após a publicação do primeiro índice, a covid-19 atingiu o mundo com uma ferocidade incomum. Surge, então, a necessidade de comparar a realidade com a previsão. 

A resposta é surpreendente, como escreve o economista e autor Branko Milanovic no seu blogue pessoal. O índice GHS não é apenas incapaz de prever resultados, mas as suas classificações registaram frequentemente o inverso das classificações de sucesso atualmente observadas. 

Os dois gráficos elaborados por Milanovic evidenciam precisamente essa falha. O gráfico à esquerda mostra que o índice GHS está positivamente relacionado à taxa de mortes - exatamente o oposto do que esperamos. O gráfico à direita mostra que os países com melhor classificação, como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Holanda estão entre aqueles que piores desempenhos verificaram.

 

Relação entre a previsão e a realidade do número de mortos
por milhão de habitantes associado à pandemia/ Branko Milanovic

 

O economista afirma que, se o índice tivesse sido classificado corretamente, “esperaríamos uma linha com inclinação positiva de 45 graus”.

Pelo contrário, vemos que os EUA estão classificados em 145º (entre 153 países) de acordo com sua taxa de fatalidade: a diferença entre sua classificação prevista e real é de 144 posições! O Reino Unido, classificado pelo índice como o segundo melhor, está em 149º de acordo com os resultados reais”, ironiza o autor.
 

Para muitos dos países denominados de ricos, as lacunas nas classificações entre o desempenho previsto e o, efetivamente, observado são enormes: a França regista um intervalo de 124 posições, a Itália de 119 posições e a Alemanha 97 posições.

No sentido inverso, muitos países registaram um desempenho muito melhor do que os especialistas previram: o Vietname ficou em 47º lugar, mas em termos de desempenho está em 4º; China 48 e 8; Cuba 95 e 19. 

Existem, portanto, muitas discrepâncias gritantes: Tailândia e Suécia estão classificadas lado a lado: a primeira registou 1 morte por milhão de habitantes e a segunda, 1078. Singapura e Argentina também partilham a mesma classificação no GHS: Singapura teve 5 mortes (por milhão) , Argentina 1020. “Várias dezenas de comparações semelhantes podem ser feitas facilmente”, escreve Milanovic.

O exercício mostra inequivocamente que os resultados previstos foram muito diferentes (em alguns casos, o oposto) dos resultados reais”, diz o economista, sublinhando que existem duas defesas possíveis que os autores do índice podem fazer.

O primeiro é que é muito provável que as mortes relativas à pandemia sejam mal avaliadas, mas esse argumento é enfraquecido pelo facto de que as diferenças nas taxas de mortalidade entre bons e maus desempenhos são enormes.

“Frequentemente são várias ordens de magnitudes diferentes: as mortes por milhão foram (em 21 de janeiro de 2021), 1266 nos EUA, 1 na Tailândia, 3 na China, 16 em Cuba. No entanto, as mortes mal medidas ocorrem nos últimos três países e não podem ser subestimadas em mais de 1200 vezes na Tailândia, 400 vezes na China ou 80 vezes em Cuba”, afirma Milanovic, destacando que, para o índice fazer sentido, igualar China, Tailândia e Cuba com os EUA, Reino Unido e Holanda não é suficiente. “Seria necessário mostrar que China, Tailândia e Cuba fizeram (como o índice previu) muito pior”.

O autor defende que os argumentos que suportam uma falha na medição - imposta por uma não divulgação do número real de mortos num país - “quase certamente encontrará a mesma falta de correlação entre os resultados previstos e reais”.
 

Em segundo lugar, os autores do índice podem justificar que as previsões feitas aqui se referem, em geral, a epidemias, ao passo que a covid-19 é uma epidemia muito específica que tende a ser muito mais fatal para a população idosa ou obesa. 

De acordo com esse argumento, se os autores conhecessem as características da covid-19, teriam procurado produzir um índice mais preciso. 

Isso é perfeitamente possível”, relata o economista, sublinhando que o próprio argumento desconstrói a própria ideia subjacente ao índice. “Se cada epidemia é muito idiossincrática, então qual é o propósito de ter um índice GHS geral?”, questiona.

 

Suponha que a próxima epidemia mate pessoas com olhos azuis. Uma vez que não sabemos que tal epidemia irá acontecer, que informação útil pode ser obtida do índice GHS? Poderíamos então fazer uma classificação totalmente aleatória dos países - se cada epidemia for inteiramente específica e seus efeitos não puderem ser previstos”, defende Milanovic.

Uma análise comparativa entre a previsão e a dura realidade leva-nos à conclusão de que um índice que tem o objetivo de destacar os pontos fortes e fracos no combate de possíveis epidemias falhou totalmente, “ou pode ser considerado inútil”. 

Pode-se escolher uma ou outra dessas duas conclusões igualmente condenatórias”, escreve o especialista, referindo porém, que devemos acrescentar dois pontos à nossa análise. O primeiro refere-se aos casos em que o índice previu o desempenho com sucesso - o caso da Tailândia, Austrália, Singapura e Japão. O segundo é um apelo: “Tenha cuidado com índices semelhantes produzidos para outras variáveis, como corrupção, transparência no governo e assim por diante”. “Esses podem parecem razoáveis até serem confrontados com a realidade. Podem apenas refletir o pensamento da câmara de eco de ‘especialistas’”.