O epidemiologista norte-americano Dorry Segev, participante na Web Summit, que decorre em Lisboa, considera que a “politização da saúde pública” foi “um erro” e explica, em parte, o surgimento dos movimentos antivacinas.

Fizemos algo de errado: politizámos a saúde pública”, resumiu, numa sessão de perguntas/respostas sobre os movimentos antivacinas.

Dorry Segev, professor de Epidemiologia na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, aponta erros à comunicação da mensagem sanitária. “Essa foi a coisa que fizemos mal. Gerámos um movimento forte e zangado”, lamenta.

“Precisamos de mais compaixão”, propõe, contando que já convenceu muitas pessoas a vacinarem-se depois de as ouvir e de conversar com elas calmamente. 

Estar na linha da frente é desolador, frustrante e revoltante”, descreve. “Como é que isto aconteceu? De onde vem esta rejeição?”, questiona, referindo-se aos movimentos antivacinas e lembrando que estes “têm impacto na saúde pública”.

Neste contexto, defende, é preciso vincar “o contrato social”, não hesitar em impor regras no espaço público e não deixar de apurar responsabilidades, quer de governos, quer dos media, incluindo de redes sociais como o Facebook. Aliás, isso já está a acontecer, doutra forma Donald Trump teria sido reeleito Presidente dos Estados Unidos, acredita.

Mas, ao mesmo tempo, frisa, é possível “dar às pessoas outras hipóteses” em certas circunstâncias.

Se tivéssemos dado hipóteses às pessoas, talvez não tivesse havido este grau de rejeição”, estima, explicitando que “máscaras e testes regulares são eficazes se as pessoas não se quiserem vacinar”

Além disso, acrescenta, em certas circunstâncias, “é razoável, do ponto de vista científico, haver outras opções para além da vacina”, desde que se assegure a logística e avalie os riscos.

O epidemiologista considera que impor regras de vacinação funciona, mas não deve excluir a adoção de “outras opções eficazes, quando estas opções façam sentido”

Dorry Segev, que tem erguido a sua voz em defesa dos factos e contra a ficção, no que à covid-19 diz respeito, compara as pessoas antivacinas a pessoas alcoolizadas.

As pessoas podem andar bêbadas na sua propriedade privada, quero lá saber. Mas não podem andar bêbadas na via pública, porque põem outras pessoas em risco. Se quiserem estar bêbadas, podem ficar em casa”, confronta.

“Infelizmente, acho que isto [a covid-19] não vai desaparecer, mas é só ‘um feeling’”, confessou, afastando o caráter científico da sua impressão. 

Vai tornar-se endémico, vai haver contínuas variantes, vamos precisar de reforçar a nossa imunidade continuadamente”, antecipa, sublinhando que, para além disso, “as variantes não querem saber de fronteiras” e as respostas à pandemia ainda têm muitas diferenças geográficas.

“Agora precisamos de pensar além-fronteiras, doutra forma teremos mais variantes e mais mortíferas”, acredita, defendendo “soluções de longo prazo”, que possam vir a adaptar-se aos fluxos da pandemia.

Com mais de mil oradores, 700 investidores, 1.250 'startups' e 1.500 jornalistas, a Web Summit decorre até quinta-feira, em modo presencial, depois de a última edição ter sido ‘online’.

A organização espera cerca de 40 mil participantes, menos 30 mil do que na última edição presencial, em 2019.

/ JGR