A pandemia levou empresas e instituições a acelerarem na adoção de tecnologia digital e inteligência artificial como forma de sobreviverem, mas é ainda cedo para dizer que a cultura mudou, segundo um estudo hoje publicado.

“Caminhos e oportunidades para a inteligência artificial – a perspetiva portuguesa”, de João Castro e Vasco Teles, é editado hoje pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e nele se ilustra que a pandemia mudou maneiras de trabalhar, consumir e fazer negócio, por mais pequeno que seja.

Com portas fechadas e trabalhadores em casa, “alguns negócios estavam no sítio certo à hora certa para trabalhar neste contexto, outros, pela sua natureza, sofreram imenso e ainda vai ser difícil o seu regresso ou saber sequer se fazem sentido no futuro do trabalho”, disse João Castro à agência Lusa.

A partir do confinamento de março de 2020, foi “a agilidade” em experimentar coisas novas que fez em muitos casos a diferença: “como é que um supermercado de esquina, que não tem recursos ou habilitações para criar uma presença ‘online’, se desenrasca? Com uma simples folha de cálculo, um ficheiro Excel que envia em anexo por ‘email’ aos vizinhos, consegue salvar um negócio”, indica.

Esta digitalização, por incipiente que seja, é “a oportunidade de encontrar outras formas de trabalhar”, refere, algo que não é claro que se vá tornar uma cultura ou se é um fenómeno pontual provocado pela necessidade.

Este ‘bichinho’ de experimentar e continuamente melhorar as formas como as coisas são feitas, seria interessante que ajudasse a criar uma cultura de inovação dentro das empresas com negócios tipicamente estáveis, que foram obrigadas a fazê-lo no ano passado. Espero que essa cultura dure mais algum tempo e que continuem a ter essa ‘fome’ de procurar novas soluções mesmo num contexto em que não estamos a falar de ter vidas em risco, como estamos na pandemia”, disse.

Por outro lado, o recurso ao teletrabalho generalizado deu às empresas “mais soluções sobre a forma como podem recrutar”.

“Deu-lhes evidências de que é possível ter produtividade mesmo sem ter os colaboradores todos debaixo do mesmo teto, em termos de recrutamento, se estavam limitados geograficamente, deixaram de estar e podem ir buscar pessoas competentes a outro sítios”, o que é relevante “em Portugal, onde se fala muito do interior”.

Nas conclusões do estudo, estimam que de todas as tecnologias digitais que existem, a inteligência artificial é a que tem capacidade “de ter mais impacto, seja pela sua utilização direta na análise e compreensão dos sistemas que os seres humanos não conseguiram ainda descodificar, seja pela capacidade de dar poder às máquinas e à automação a níveis impossíveis de atingir antes”.

Os autores propõem mesmo que dada “a magnitude do impacto provável da Inteligência Artificial”, é preciso “encontrar espaço para um anexo, uma emenda, um acrescento à Declaração Universal dos Direitos Humanos”.

Defendem ainda que disseminar a inteligência artificial requer “um debate social e ético global”, em que se dê voz quer aos governos, quer às empresas quer aos académicos.

Ao mesmo tempo que se alargam os domínios onde a inteligência artificial é utilizada, “cresce um “ceticismo e confiança saudáveis nos seus sistemas”, notam os investigadores, apontando os chamados “deepfakes” – imagens e vídeos gerados por computador que parecem ser verdadeiras – e a maneira como as redes sociais procuram agarrar os utilizadores o maior tempo possível como exemplos de como a inteligência artificial pode ser “uma ferramenta de manipulação”.

Temos, como sociedade, que debater e discutir a ética, a privacidade, o uso ou o abuso de tecnologia e o que podemos fazer com ela, são temas que não são inteiramente novos, mas são importantes agora”, refere João Castro.

O investigador salienta que “a tecnologia existe e consegue fazer imensas coisas, mas no que faz, não é boa nem má por natureza”.

“Fazer o acompanhamento dos cidadãos por todo o sítio onde estão, ter o seu registo geográfico [como na monitorização de movimentos da população sob confinamento] é possível. Mas é algo que queremos fazer? Com que finalidade ou propósito?”, questiona, salientando que se encontrou utilidade para essa tecnologia “no contexto de gestão da pandemia”.

Na sua análise, chegaram à conclusão de que há três caminhos para a evolução dos sistemas de inteligência artificial: o europeu, que se baseia na proteção dos dados pessoais, o norte-americano em que privados juntam grandes quantidades de dados de consumo (“o novo petróleo”) e o chinês, com iniciativas governamentais “consideradas imparáveis como regra autoritária”.

Seja qual for o rumo, não duvidam “muitos dos principais talentos da área em Portugal são dos melhores do mundo mas muito difíceis de manter no país” porque ganham pouco.

“Esta realidade está rapidamente a levar a uma escassez de profissionais qualificados e, a curto prazo, pode tornar-se um obstáculo à futura adoção e exploração da inteligência artificial na indústria portuguesa”, consideram.

Os autores salientam que é no setor da saúde que há mais investigação nas aplicações da inteligência artificial, destacando áreas específicas como a análise de imagens médicas, deteção de padrões de movimento [na investigação da doença de Parkinson], diagnóstico da diabetes ou avaliação forense de crimes sexuais.

No setor do comércio “o potencial da aplicação da inteligência artificial ao comportamento dos consumidores também é largamente reconhecido” na identificação de padrões de consumo e outros aspetos.

/ RL