Uma equipa de investigadores descobriu que lagos no norte do Canadá podem fornecer pistas novas sobre os oceanos ancestrais e ajudar a perceber o início da vida na Terra.

Cientistas da universidade canadiana de Waterloo lideraram uma equipa de microbiologistas, geoquímicos e especialistas em água doce para estudar os lagos do 'Escudo Canadiano', designação de uma vasta região geológica no norte do Canadá.

Os lagos podem ser semelhantes aos oceanos do período Arqueano, compreendido aproximadamente entre os 3,8 mil milhões e os 2,5 mil milhões de anos, quando a vida microbiana se desenvolveu num mundo sem oxigénio.

A descoberta é importante porque há milhões de lagos no 'Escudo Canadiano' que parecem partilhar propriedades essenciais dos oceanos do Arqueano. Até agora, os cientistas basearam-se em quatro lagos com condições primordiais idênticas, a maioria dos quais encontrados em locais remotos ou ecologicamente sensíveis.

“Com tantos lagos para estudar, esta descoberta muda a forma como abordamos esse campo de investigação”, disse o coautor do estudo Jackson Tsuji, estudante de doutoramento do departamento de Biologia da faculdade de Ciências da universidade de Waterloo.

É emocionante que esses lagos, que estão basicamente no nosso quintal, contenham informação que pode ter implicações para o clima global, passado e presente, e para a gestão da água."

Os resultados da investigação, que foram publicados na revista científica online Scientific Reports, têm potencial para transformar a maneira como os cientistas investigam as formas de vida mais antigas da Terra, que surgiram em oceanos sem oxigénio, com baixo teor de enxofre e ricos em ferro, elementos químicos essenciais para todos os organismos vivos.

Muitos lagos do 'Escudo Canadiano', também pobres em enxofre e ricos em ferro, desenvolvem camadas de água sem oxigénio no verão, mas que se misturam com camadas oxigenadas na primavera e no outono.

“Costumávamos pensar que encontrar um ambiente semelhante ao oceano Arqueano significava que tinha de se encontrar um lago em que as camadas de água não se misturassem. Os casos conhecidos até agora estão a centenas de metros de profundidade”, explicou Josh Neufeld, professor do departamento de Biologia.

Os investigadores podem agora usar os lagos como laboratórios vivos para estudar como é que os micróbios no passado funcionavam.

Os microrganismos detetados nos lagos agora identificados metabolizam os compostos de ferro com a ajuda da luz solar, o que pode ajudar os cientistas a entender como prever e controlar o crescimento de algas prejudiciais (porque o ferro desempenha um papel fundamental nesse desenvolvimento).

Além disso, comunidades microbianas únicas e desconhecidas anteriormente, especificamente micróbios que consomem metano no fundo destes lagos, têm grandes implicações nas emissões de gases de efeito de estufa.

O 'Escudo Canadiano', uma das maiores zonas ecológicas do Canadá, estende-se por mais de 20 por cento da massa terrestre do país.

Lagos idênticos podem ser encontrados na Finlândia, Noruega, Suécia e Rússia.