Pelo menos 68 pacientes com cataratas, que vivem na região de Dallas, nos EUA, queixam-se de ter ficado parcialmente cegos ou piorado alguns dias ou semanas após lhes ter sido injetada uma versão contrafeita de um medicamento chamado TriMoxi. Os pacientes foram submetidos a cirurgias às cataratas e, após o procedimento, os médicos injetaram-lhes nos olhos uma medicação que deveria acelerar a cicatrização e poupá-los ao incómodo do tratamento com uso de colírios, posterior à operação. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário e várias pessoas apresentam agora sintomas que não estavam previstos.

De acordo com o BuzzFeed News, alguns pacientes não conseguem ter uma perceção ótica da profundidade ou das cores. Outros veem brilhos, luzes a piscar ou escuridão. Muitos estão constantemente desorientados, atormentados por dores de cabeça e náuseas, incapazes de conduzir um automóvel ou trabalhar.

Agora, decidiram tomar posição contra a farmácia que fez a mistura dos ingredientes do medicamento ou composto, a empresa que supostamente criou a receita de má qualidade e as clínicas que a injetaram. Dois dos pacientes instauraram processos judiciais na semana passada e dezenas de outros preparam-se para se juntar a eles.

Numa tentativa de se descartarem da responsabilidade, os arguidos atiram a culpa uns para os outros. A empresa acusada de criar a receita para a mistura do medicamento, a PCCA - Professional Compounding Centers of America (Centros Profissionais de Compostos da América), nega tê-lo feito e diz que o problema foi causado em parte pela farmácia que misturou o composto, a Guardian Pharmacy Services. Por outro lado, a farmácia garante que não há ligação entre os seus produtos e os problemas de visão dos pacientes, que eram complicações conhecidas da cirurgia. Já as clínicas que realizaram a cirurgia, que normalmente têm um baixo índice de complicações, defendem que o problema está no medicamento.

As ações judiciais chamam agora a atenção para a próspera indústria de "farmácias de manipulação", empresas que fabricam medicamentos para pessoas que precisam de produtos personalizados que não são produzidos por laboratórios farmacêuticos, como por exemplo uma pílula em forma líquida. A lei federal dos EUA determina que tipos de ingredientes podem ser usados em medicamentos compostos, mas ninguém é obrigado a testar se o produto final é seguro e eficaz. Por isso, empresas como a PCCA e a Guardian Pharmacy Services são livres para criar ou vender medicamentos não testados e com pouca supervisão do Governo.

Em 2013, depois de erros cometidos por uma dessas empresas em Massachusetts, que provocaram 64 mortos, o Congresso aprovou uma lei destinada a aumentar a autoridade da Food and Drug Administration (FDA), a agência federal responsável pela proteção e promoção da saúde pública através do controlo e da supervisão da segurança alimentar e dos medicamentos. A indústria insurgiu-se, argumentando que os Estados já faziam a supervisão adequada, enquanto os críticos da lei aprovada no Congresso apontaram que era “fraca demais”, chamando a atenção para “brechas” na legislação que permitem que a maior parte do setor continue a fazer negócio como sempre fez.

Algumas das empresas visadas nas ações judiciais em Dallas têm antecedentes comprometedores, concluiu o BuzzFeed News, depois de analisar documentos da FDA, arquivos judiciais, registos comerciais e estaduais de farmácias. Em 2010, por exemplo, a PCCA foi alvo de um processo por alegadamente ter criado um fármaco que cegou um paciente. Antes, dois administradores da Guardian Pharmacy Services ajudaram a gerir farmácias na Internet que operavam de forma ilegal.

É difícil para mim tomar conhecimento de um caso em que houve tanto desrespeito pela segurança do paciente na preparação de um medicamento composto", disse ao BuzzFeed News, Larry Sasich, farmacêutico de Ontário, no Canadá, que acompanha a indústria e não está envolvido nos processos judiciais. “Com tão poucas consequências para quem comete os delitos, tragédias semelhantes podem facilmente ocorrer com os clientes de milhares de outras farmácias de compostos nos Estados Unidos”, criticou.

De acordo com uma estimativa citada pelo BuzzFeed News, mais de 110 mortes foram associadas à indústria de medicamentos compostos nos últimos 20 anos, nos EUA. Os pacientes de Dallas são, provavelmente, o maior grupo de pessoas a alegar danos causados por erros de composição dos medicamentos desde a tragédia de Massachusetts.

"Estas coisas não precisam acontecer", rematou Larry Sasich. "Não há razão legítima para que aconteçam”, defendeu.