Uma banca corrida de cortiça junta umas cinco startups, dá pouco mais de um metro de espaço a cada uma. Começam pequenas em tudo, mas podem ter grandes ideias e na Web Summit a visibilidade não se mede só pelo espaço. A avaliar pelas pessoas que vão aparecendo a fazer perguntas, pelo menos curiosidade não falta. “Fala Cidadão” chama a atenção desde logo por estar escrito em português e convidar-nos a perceber o que querem, afinal, de nós.

Rapidamente percebemos que é o que nós queremos: conseguir comunicar com as autoridades, a nossa junta de freguesia e com a câmara municipal, com as entidades que fornecem serviços públicos, para resolver problemas do dia-a-dia e dar sugestões. No fundo, sair das redes sociais, onde muitos só despejam raiva, e falar diretamente com quem pode dar soluções.

Sim, há grupos no Facebook. Sim, há câmaras que têm páginas ativas e até respondem. Mas ter isso tudo numa só aplicação que reporta para a câmara o problema e ela direciona para o serviço público em causa, que nos responde? Na mouche. Ou melhor dizem os brasileiros, show de bola.

Até porque é isso mesmo, é passar a bola a quem mandar, deixar de ter de procurar o contacto específico da companhia elétrica ou das águas. Escrever o que se passa, tirar uma fotografia, enviar um áudio. Tudo através da mesma aplicação que fará chegar a mensagem ao destinatário, dando feedback ao utilizador de como está o processo. Por mensagem automáticas? Também, mas é possível enviar mensagens personalizadas a esclarecer os munícipes.

“Fala Cidadão” pretende dar voz aos cidadãos e os brasileiros usam uma expressão que traduz esta interação:

É um sistema de ouvidoria. A pessoa reporta o problema elétrico, a prefeitura faz uma gestão online e reencaminha para a companhia elétrica e dá-se resposta à demanda do utilizador”, explica André, da equipa que viajou de Hamburgo, Rio Grande do Sul, até Lisboa.

Quando a pessoa verifica que a situação ficou resolvida, mas não totalmente, tem hipótese de reclamar. Seja um buraco que ficou por tapar numa obra, seja a recolha de lixo que foi mal feita. Problemas comuns do dia-a-dia que todos temos.

"Fala Cidadão", aplicação já utilizada em 40 cidades brasileiras #websummit #WebSummit2018 pic.twitter.com/4hMnQTdPYO

— Vanessa Cruz (@vanessasoucruz) 6 de novembro de 2018

 

Para a autarquia, para além de ter um canal aberto com os munícipes, acaba por ter uma “visão macro” do desempenho camarário e dos seus serviços associados e, ao mesmo tempo, conseguir tomar decisões com base na urgência do que há para resolver.

A aplicação permite, ainda, fazer inquéritos online – o que ajuda a mais rapidamente ter feedback do que vai bem e do que vai mal para quem ali vive -, publicar editar, notificar os utilizadores sobre avisos de mau tempo ou outros fenómenos importantes.

Simplificar a comunicação, atuar em conformidade. Até parece fácil. Mas por todos sabermos, em todos os países, em como isto é difícil, é que Zaisha, do que viu até agora, esta ideia está entre as melhores. O sorriso aberto e os olhos grandes espelham a jovem curiosa que é, vinda de Londres, e que anda de banca em banca a fazer perguntas.

“Esta está no meu top 3, seguramente. Dá poder às pessoas, dá-lhes voz. Dos problemas passa às soluções. Nós sabemos o tipo de política e políticos que temos. Eu não tenho voz e esta possibilidade cria um grande efeito em mim. Estou fã”.

No Brasil há três anos, esta ideia já convenceu 40 cidades, 24 mil utilizadores e foram reportadas mais de 74.000 ocorrências. Simplex? Check (para não fugir aos estrangeirismos em ambiente de cimeira tecnológica).