Por ser uma doença recente, há ainda muita incerteza em relação ao impacto da covid-19 na gravidez e pós-parto. Mas, apesar da ausência de dados e estudos conclusivos, nos últimos meses muitos especialistas têm procurado saber mais sobre covid-19 e gestação e há novas informações sobre o tema. 

Segundo o El País, a ligação entre o novo coronavírus, gravidez e parto foi tema de várias investigações que estão a ser apresentadas esta semana no 51.º Congresso Mundial de Saúde Pulmonar, que nesta edição se realiza de forma virtual. 

Um dos estudos apresentados no próximo sábado sugere que as grávidas infetadas com covid-19 durante a gestação têm maior risco de fazer cesariana, maior possibilidade de complicações no pós-parto e maior incidência de tromboses placentárias. 

A pesquisa, conduzida pelo Centro Médico Weill Cornell, fez o seguimento do parto de 675 mulheres em três hospitais de Nova Iorque, nos Estados Unidos, 70 das quais estavam infetadas com covid-19, na sua maioria assintomáticas.

Os investigadores concluíram que 46% das infetadas tiveram de fazer uma cesariana no parto, contra 30% das grávidas saudáveis, e que as complicações pós-parto como febre, hipoxia - diminuição da oxigenação do cérebro - ou necessidade de voltarem a ser internadas ocorreram em 12,6% das mulheres com covid-19 e apenas 4,5% naquelas que não tinham o vírus. Segundo o estudo, nove das 70 mulheres com covid-19 tiveram pelo menos uma complicação pós-parto, ou seja, 12,9%, um número muito superior aos 4,5% das restantes grávidas não infetadas. 

Isto sugere que o período de pós-parto é especialmente vulnerável para as grávidas com covid-19", destacou Malavika Prabhu, a autora principal da investigação. 

O estudo dá ainda conta de casos de má perfusão vascular, que aponta para a existência de coágulos  na placenta, em quase metade das mulheres com covid-19: 48,3% no total. "Pode significar que estamos perante uma das sequelas específicas da covid-19 em grávidas, mas precisamos de mais investigação", admitiu Prabhu. 

Os coágulos na placenta podem provocar diminuição de peso no bebé, descolamento da placenta, pré-eclampsia, ou seja, hipertensão arterial, e até a morte do feto nos casos mais graves.

Até agora, vários estudos apontavam também no sentido de que as grávidas com covid-19 tinham partos prematuros e que a transmissão do vírus de mãe para filho é possível, mas rara. 

Uma outra investigação que será apresentada esta semana foi dirigida pela professora de ginecologia na Universidade de Washington, Kristina Adams Waldorf, e defende que as grávidas com obesidade são um grupo de risco para a covid-19. O estudo seguiu 240 mulheres grávidas, mais de metade no terceiro trimestre da gestação e em que a maioria, 71%, apresentava sintomas de covid-19 e 45% sofriam de obesidade antes de engravidarem. A investigadora acredita que o excesso de tecido adiposo possa afetar a resposta imunitária das grávidas às infeções virais e que  obesidade possa mesmo afetar "a mecânica pulmonar e o trabalho respiratório. Em conjunto, estes fatores podem fazer com que as doentes grávidas com obesidade sejam mais sintomáticas", explicou. 

Recentemente, Adams Waldorf publicara já outro estudo no American Journal of Obstetrics and Gynecology que sugere que o novo coronavírus pode afetar com maior gravidade as mulheres que já sofriam de obesidade antes de engravidarem. Nesta investigação, a  especialista seguiu a gravidez de 46 gestantes infetadas, dois terços das quais tinham obesidade ou excesso de peso. Destas, 15% teve uma forma grave de covid-19. 

Bárbara Cruz