Pelo menos 83 pessoas morreram em experiências médicas secretas realizadas pelos Estados Unidos na Guatemala durante a década de 1940. Foi o que concluiu uma comissão especial nomeada pelo presidente norte-americano, Barack Obama, para investigar o caso.

Os autores do relatório concluíram que quase 5,5 mil pessoas foram submetidas a exames e um total de 1,3 mil guatemaltecos foram infectados com doenças venéreas num programa conduzido pelo National Institute of Health, agência ligada ao Departamento de Saúde dos EUA, entre 1946 e 1948.

Val Bonham, directora executiva da comissão especial encarregada da investigação, explica ao jornal espanhol «El Mundo» que o Estado norte-americano gastou dois milhões de dólares com aquelas pesquisas.

«As experiências médicas contavam com um fundo de mais de 170 mil dólares, o que era muito dinheiro para a época», explica a responsável.

De acordo com os cálculos do Departamento de Estatística dos EUA, o total de 171.950 dólares de 1946, ajustados à inflação de 2011 correspondem a 1.992.168 dólares (mais de 1,4 milhões de euros).

O caso foi descoberto em 2010 pela historiadora Susan Reverby, do Wellesley College. A historiadora pesquisava sobre ensaios clínicos realizados pelo médico norte-americano John Cutler quando encontrou documentos sobre as experiências na Guatemala.

Cutler e outros pesquisadores norte-americanos usaram cobaias humanas, inclusive doentes mentais, para descobrir se a penicilina poderia ser usada para prevenir doenças sexualmente transmissíveis. Os pesquisadores inocularam gonorreia e sífilis em prostitutas e estimularam-nas a manter relações sexuais com soldados, reclusos e doentes mentais.

Quando soube das experiências, Obama anunciou a criação de uma comissão especial para investigar o caso e fez um pedido de desculpas formal, por telefone, ao presidente guatemalteco, Álvaro Colom. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, descreveu os testes como «desumanos» e «anti-éticos».

Álvaro Colom, que não sabia de nada, classificou as experiências norte-americanas na Guatemala como «crimes contra a humanidade». O presidente da Guatemala ordenou que o país realizasse uma investigação própria sobre o caso e estuda levar o caso aos tribunais internacionais.