Candidato duplicado, o representante da esquerda mais à esquerda na corrida à presidência francesa tratou de inovar, conseguindo fazer dois comícios ao mesmo tempo, no domingo à noite. Marcou presença física em Lyon, na mesma cidade e à mesma hora que Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita que lidera as sondagens, apresentava um cardápio de 144 medidas que se propõe pôr em prática caso vença. Entre as quais, se inclui o referendo à permanência na União Europeia.

Jean-Luc Mélenchon esteve na cidade de Lyon, no sudeste de França e ao mesmo tempo, através da projeção de um holograma em três dimensões, falou também num comício em Paris, a mais de 450 quilómetros de distância.

Onde é que eu estou? Estou em Lyon... e agora em Paris", foram as palavras de Mélenchon a abrir os dois comícios, fazendo então estalar os dedos como que num golpe de magia, quando a projeção da sua imagem surgiu na capital francesa.

A imagem foi transmitida por satélite, com uma divergência temporal de dois segundos, num trabalho que terá custado entre 30 mil a 40 mil euros.

Assim, Mélenchon falou para cerca de 12 mil apoiantes em Lyon. E o seu holograma foi igualmente aplaudido em Paris, por umas seis mil pessoas.

A solução da campanha do candidato de esquerda é inovadora na corrida às presidenciais francesas, cuja primeira volta se disputa a 23 de abril. A técnica já foi, contudo, aproveitada por outros políticos, noutras paragens. Faz notar a agência noticiosa Reuters, que o atual presidente turco e então primeiro-ministro Tayyip Erdogan, a usou em 2014.

Apaixonado pela tecnologia, o candidato Mélenchon aproveitou a inovação do holograma para daí extrair uma mensagem política, com críticas implícitas às propostas ultra-protecionistas de Marine Le Pen.

É uma ocasião para descobrir o que todo mundo sabe: que quando o espírito humano inventa e quando não há obstáculos de cor da pele, religião ou género, a imaginação desenvolve-se e o conhecimento é partilhado", afirmou Mélenchon.

Apelo à união da esquerda

Em Lyon - e igualmente em Paris, onde através da projeção do seu holograma não deixou de ser aplaudido - Mélenchon centrou parte do seu apelo na necessidade de uma união entre a esquerda francesa.

A última sondagem feita pela empresa BVA dá a Mélenchon uma intenção de voto de entre os 11% e os 11,5%. Benoît Hamon, o candidato oficial dos socialistas, recolhe entre 16% e 17%. Conclusão: nenhum terá hipóteses de passar à segunda volta.

De acordo com o estudo, realizado no final da passada semana, Marine Le Pen da Frente Nacional da extrema-direita leva a dianteira, com um quarto dos franceses a darem-lhe preferência. Abaixo, surge Emmanuel Macron, antigo ministro da Economia do governo socialista, com uma margem entre os 21% e os 22%, ainda assim, acima do candidato da direita republicana, François Fillon, que não ultrapassa os 20% das intenções de voto.

Paulo Delgado