Uma empresa de Coimbra, integrada no centro de incubação da Agência Espacial Europeia (ESA/BIC Portugal), desenvolveu um sistema capaz de prever falhas mecânicas na aviação ligeira, que espera vir a ser comercializado em 2019.

O sistema, designado Air Copilot, "analisa as informações recolhidas através dos sensores instalados na aeronave, para obter informações sobre os sistemas mecânicos do avião" e permite detetar "qualquer falha impercetível sem o uso de equipamentos de medição, alertando sempre que haja problemas mecânicos", refere uma nota da iTrack Solutions, a startup que foi a primeira das 23 incubadas na ESA/BIC Portugal a desenvolver uma solução tecnológica com uma patente da Agência Espacial Europeia.

O que nos interessa é perceber as condições mecânicas que o avião tem para voar. Se até agora descobríamos alguma falha, muitas vezes a meio do voo, isso podia ser trágico. O objetivo do Air Copilot é possibilitar que o piloto, quando entra no avião, ainda antes de levantar voo, possa tomar uma decisão segura", disse à agência Lusa a diretora de marketing da iTrack Solutions, Filipa Brandão.

O produto desenvolvido pela empresa integrada na incubadora instalada no Instituto Pedro Nunes (IPN) realiza três testes - um que resulta da análise de vibração, outro da compressão relativa e um último que usa um medidor de impulso indexado ao sistema do avião - permitindo recolher informação sobre se a aeronave "está ou não totalmente segura para voar". "E cabe então ao piloto, sabendo dos riscos ou ausência dos mesmos, tomar essa decisão", assinalou Filipa Brandão.

A responsável da iTrack Solutions assegura que a informação disponibilizada pelo Air Copilot "é acessível a qualquer piloto".

Está dentro dos parâmetros que ele está habituado a avaliar, não tem uma curva de aprendizagem grande. O que não invalida que não possamos fornecer suporte técnico, caso necessário, mas o 'software' foi criado com uma forma tão intuitiva, com termos a que o piloto está habituado, que o sistema apresenta logo quais os riscos, se os houver".

A ideia de criar um sistema que possa evitar eventuais acidentes mecânicos em aviões ligeiros ou experimentais partiu de Daniel Marques, administrador executivo da iTrack Solutions e piloto de aviões.

"Muito do que está embebido no produto decorre das dificuldades que um piloto experiencia", frisou Filipa Brandão. A equipa de desenvolvimento do Air Copilot é constituída por dez pessoas: além do administrador executivo da empresa o engenheiro mecânico também é piloto de aviões. "Fomos beber muito àquilo que eram as dificuldades que sentiam e experiências que tiveram".

Demonstração em clima de festa

O sistema, que está a ser desenvolvido desde julho e cuja primeira apresentação pública está agendada para um evento comemorativo do 4.º aniversário da incubadora espacial portuguesa, quinta e sexta-feira, em Coimbra, irá nos próximos três meses entrar em fase de testes em aviões, integrando a patente da ESA, que confere ao Air Copilot uma "exatidão muito precisa".

"Para uma exatidão muito precisa não há tecnologia como a espacial. Percebemos que a ESA estava disponível para fazer algumas parcerias para uso de patentes, fizemos uma parceria com a ESA, conseguimos a licença de pesquisa e estamos já a tratar de uma licença comercial", indicou Filipa Brandão.

No evento da ESA BIC Portugal, a iTrack Solutions fará a demonstração com um modelo de aeromodelismo "para exemplificar como o sistema funciona", esperando, assim que as condições climatéricas melhorarem, poder integrar o sistema em aviões ligeiros e "estar a voar em testes" em vários pontos do país, com base em diferentes aeroclubes, afirmou a diretora de marketing. "Já temos os contactos todos com os aeroclubes, já há cartas de interesse e pilotos interessados em termos nacionais e contactos para lojas especializadas no estrangeiro".

"Há um interesse generalizado no Air Copilot e, por isso, temos muita confiança de que a nível comercial o produto avance sem dúvida alguma em 2019", revelou Filipa Brandão.

Questionada sobre o investimento necessário para desenvolver o sistema, Filipa Brandão disse que este "não foi muito grande", dado que a iTrack Solutins é uma 'spin off' (empresa nascida de uma casa-mãe) da TIS - Technological and Intelligent Systems, empresa de prototipagem que trabalha, entre outras, na área aeronáutica.

Todos os meios que precisávamos a nível de construção de produto e prototipagem existiam dentro da TIS, com uma equipa já habituada a trabalhar no meio aeronáutico, o que facilitou imenso. Tanto a nível de conhecimento como a nível de meios, o investimento foi relativamente pequeno. Não tivemos o problema de outras empresas, que quando chegam à fase de protótipo é terrível, é um investimento gigante e nós não sofremos disso. Por isso, também estamos muito confiantes em entrar no mercado em 2019".

O evento da ESA BIC Portugal conta com as presenças anunciadas, na sexta-feira, do diretor-geral da Agência Espacial Europeia, Johann-Dietrich Wörner, e do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor.