O fenómeno nasceu na Rússia, na rede social Vkontakte. Mas rapidamente se espalhou entre os adolescentes de todo o mundo e passou a preocupar os pais. O jogo “Baleia Azul” é uma espécie do “jogo do suicídio”, com meandros preocupantes: os adolescentes que aderem ao jogo são submetidos, por um “curador”, a uma lista de tarefas que são atentatórias da sua integridade física e emocional (e, em muitos casos, também de outras pessoas).

São desafios à coragem de cada um dos jovens que adere ao grupo”, resume a jornalista Paula Oliveira, diretora editorial da Media Capital Digital e chefe de redação da TVI.  

Quando completa determinada tarefa, o adolescente deve enviar um comprovativo ao curador, que lhe atribui novo desafio. A lista de tarefas culmina no suicídio do participante.

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Há quem diga que o nome do jogo é uma referência às baleias, que aparecem com frequência mortas nas praias, acreditando-se que tenham cometido suicídio. Mas há também quem atribua o batismo do jogo a uma canção da banda russa Lumen, cuja letra faz referência a “uma grande baleia azul”, que “não consegue romper a rede”.

A verdade é que, uma vez integrados no desafio, “se eventualmente o jovem não faz o que lhe é imposto, está sujeito a um jogo manipulatório que ele não mais controla”, como alerta o psiquiatra Vítor Cotovio.

Da Rússia para o mundo

O jogo visa sobretudo adolescentes entre os 10 e os 14 ou 15 anos, que podem autopropor-se para integrarem estes grupos fechados nas redes sociais ou podem ser seduzidos pelos tais “curadores”.  

Na Rússia, o jogo foi detetado “quando se percebeu que havia um aumento de suicídios na adolescência e os investigadores concluíram que estava associado a este desafio”. Nessa altura, a popularidade do desafio sofreu um revés.

As autoridades obrigaram a rede social a eliminar hashtags, contas e grupos associados a esse jogo. Isso fez com que abrandasse consideravelmente entre 2015 e final de 2016, 2017, que é quando ele regressa às redes sociais”, explica a jornalista Paula Oliveira.

Da VKontakte, o jogo depressa passou para redes sociais como o Facebook, Twitter e Instagram. É fundamental os pais estarem atentos, até porque basta uma breve pesquisa nas redes sociais para encontrar grupos associados ao jogo.  

Não devemos diabolizar as redes sociais, mas não nos devemos demitir daquilo que é a supervisão em relação ao que se passa nas redes sociais. Quando digo exigência de supervisão é supervisão institucional, mas também supervisão dos próprios educadores”, sublinha o psiquiatra Vítor Cotovio, em declarações à TVI.

 

É muito importante os pais monitorizarem as redes sociais dos filhos e conversarem com eles. A única solução é mesmo essa”, acrescenta a jornalista Paula Oliveira.

Saiba como monitorizar as redes sociais dos seus filhos

Paula Oliveira além de jornalista é também mãe de adolescentes e sublinha que é necessário, em primeiro lugar, “criar uma relação de confiança que permita aos jovens a liberdade para partilhar determinados aspetos com os pais”. E é fundamental não ter medo de assumir o “papel de polícia” e procurar saber o que os filhos fazem nas redes sociais.

As crianças são menores de idade. Não se trata aqui de uma invasão da privacidade dos filhos. É uma questão de não nos demitirmos das nossas responsabilidades”, resume.

Assim, tenha por hábito as seguintes práticas:

  • É importante que o seu filho partilhe consigo as passwords e os dados de registo nas contas que possui nas redes sociais, para que possa aceder, com regularidade, ao perfil do adolescente. É igualmente importante que tenha acesso ao computador e ao telemóvel do seu filho. O computador, por exemplo, deve ser usado numa área comum da casa e não dentro do quarto, com a porta fechada.
  • Monitorize os grupos de que o seu filho faz parte nas redes sociais. Além das mais populares, como o Facebook e o Twitter, não se esqueça do Wahtsapp e o do YouTube.  
  • Consulte, com regularidade, a atividade dos seus filhos em redes como o Facebook, o Twitter e o Instagram. Veja de que gostou, que publicações comentou, o que partilhou e de quem se tornou “amigo”. No Facebook, por exemplo, basta clicar no canto superior direito (junto ao ponto de interrogação na barra azul) e consultar o “registo de atividade”.
  • Certifique-se quem são os “amigos” dos seus filhos nas redes sociais. Verifique quem ele segue e quem o segue a ele.
  • Consulte, com regularidade, o histórico de pesquisas do seu filho em motores de busca como o Google.

Claro que o jovem pode sempre apagar os históricos, por exemplo. Por norma, os adolescentes conhecem as redes sociais melhor que os pais e é importante que tenha consciência disso. Se for o caso, há sempre a hipótese de instalar um software que lhe permite saber o que os seus filhos andam a fazer na internet. São Apps projetadas para monitorizar e registrar as ações do seu filho na Internet, dando-lhe um relatório diário.

Sinais de alerta

O psiquiatra Vítor Cotovio lembra que o cérebro dos jovens só está completamente desenvolvido, capaz de reconhecer completamente os riscos e fugir deles, por volta dos 22 anos. O papel dos adultos que rodeiam os jovens e os adolescentes é, por isso e até essa altura, fundamental.  

Ninguém cresce sem limites e sem regras. Ninguém cresce sem a palavra não e nós não nos podemos demitir disso”, diz Vítor Cotovio.

O psiquiatra diz que, se “por outro lado, as redes sociais são muito importantes no processo de conhecimento de aquisição de outras competências”, elas podem tornar-se um problema quando adquirem um papel demasiado importante na vida do jovem. É, pois, fundamental estar atento a sinais de alerta.

Primeiro, é preciso perceber se, em casa, nós temos um filho que está mais vulnerável. Pode estar numa fase em que está mais isolado, em que o comportamento se alterou nos últimos tempos, em que a comunicação se alterou, em que mudou de pares, em que os pares não são os mesmos, em que deixou de ter a tal rede de amigos saudável”, exemplifica Vítor Cotovio.

 

Estes jogos entram naquele espaço que, do impulso à ação, é automático. Daí o risco aumentar muito.”

Os cuidados na abordagem

Vítor Cotovio sublinha que é tão importante abordar o assunto como ter cuidados redobrados ao fazê-lo, até para evitar efeitos de contágio junto de indivíduos mais vulneráveis. “Não nos devemos de demitir de falar com os nossos filhos ou com os filhos dos outros sobre este assunto. Claro que se pede que se tenha alguma sensatez e serenidade a falar, mesmo a nível da Comunicação social, porque é um tema muito sensível”, pede.

O especialista acrescenta ainda um alerta sobre as redes sociais, que vai muito além da problemática levantada por este jogo:

É fácil nas redes sociais nós fazermos de conta. Verdadeiramente não integramos emoções, não as sentimos, não sentimos o outro não olhamos olhos nos olhos.“