Chama-se Katie Bouman, tem 29 anos e foi graças a ela que o mundo assistiu a um marco histórico na quarta-feira: a divulgação da primeira fotografia de sempre de um buraco negro. A jovem cientista foi quem liderou a criação de um algoritmo que permitiu captar a imagem real nunca antes vista pelo Homem, que vem comprovar a Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, divulgada há mais de um século.

Foi em junho que Katie Bouman e outros investigadores viram pela primeira vez o resultado de vários anos de trabalho e investigação: um “anel de fogo”, criado pela deformação do espaço-tempo, formado pelas ondas de luz que não foram sugadas pelo buraco. Mas Bouman e os colegas tiveram de guardar este segredo durante muito tempo.

Foi muito difícil manter a boca fechada. Eu nem sequer contei à minha família”, admitiu a jovem cientista à revista Time.

A imagem foi revelada ao mundo esta quarta-feira e Bouman pôde, por fim, partilhar o feito publicamente. No Facebook, a investigadora publicou uma fotografia do momento em que assistiu ao processamento da imagem pela primeira vez.

Observando, incrédula, enquanto a primeira imagem que fiz de um buraco negro estava no processo de ser reconstruída”, escreveu na legenda.

 

Bouman começou a trabalhar no algoritmo que permitiu captar a imagem em 2016, quando ainda era estudante de Engenharia Elétrica e Ciências da Computação no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

A cientista explicou ao MIT News que tentar tirar uma fotografia de um buraco negro é como “tentar fotografar uma laranja na Lua, mas com um radiotelescópio”.

Imaginar algo tão pequeno significa que precisamos de um telescópio com 10 mil quilómetros de diâmetro, o que não é prático porque o diâmetro da Terra não chega a 13 mil quilómetros”, sublinhou.

Por isso, não foi usado apenas um, mas vários radiotelescópios, localizados em diferentes pontos do globo.

Ora, o algoritmo de Bouman foi decisivo no processamento final da imagem, rendendo os dados recolhidos pelos vários radiotelescópios.

O MIT comparou mesmo o algoritmo de Bouman ao código da cientista Margaret Hamilton, que permitiu a viagem do Homem à Lua.

Apesar da importância do seu contributo, Bouman prefere realçar o esforço coletivo desta investigação, o projeto "Event Horizon", que envolveu uma equipa de 200 investigadores de todo o mundo, entre astrónomos, engenheiros e matemáticos.

Nenhum algoritmo ou pessoa fez esta imagem. Foi preciso o talento de uma equipa de cientistas de vários pontos do globo e anos de trabalho para desenvolver os instrumentos, o precessamento de dados, os métodos e as técnicas de análise que foram necessárias para conseguir este feito que parecia impossível”, escreveu no Facebook.

Nas redes sociais, os utilizadores destacaram o papel decisivo de uma mulher numa área que é dominada por homens. A deputada Alexandria Ocasio-Cortez fez questão de assinalar o "enorme contributo" de Bouman e de deixar o desejo: "A mais mulheres na ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM)!".

Bouman admitiu à Time que pensa sobre o assunto e que se questiona sobre formas de envolver mais mulheres na ciência.

Às vezes penso sobre isso. Como podemos envolver mais mulheres? Um ponto-chave pode ser mostrar que o trabalho em ciências da computação ou em engenharia não é só sentar no laboratório e montar um circuito ou escrever código no computador. (…) É trabalhar com pessoas de todo o mundo, é ir a telescópios que estão a mais de 4.000 metros de altitude. É trabalhar para captar a primeira fotografia de um buraco negro.”

Bouman é agora professora assistente de computação e ciências matemáticas no Instituto de Tecnologia da California, em Pasadena, mas diz que vai continuar a trabalhar com o projeto “Event Horizon”.

A sua paixão, essa é a mesma de sempre: “arranjar formas de ver ou medir cosias que são invisíveis”.