Na parede do anfiteatro do Centro de Investigação de  Materiais da FCT Nova está afixado um poema de Fernando Pessoa:  "Para ser grande, sê inteiro (...)  Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive". Este é um dos poemas preferidos da cientista Elvira Fortunato. "Está lá para que todos leiam e pensem em grande, que é isso que lhes tentamos transmitir", explicou a Miguel Sousa Tavares.

A vencedora do último Prémio Pessoa, atribuído na semana passada, esteve esta noite no "Jornal 24", e deixou uma mensagem de encorajamento a todos os que fazem investigação em Portugal:

Eu e a equipa revemo-nos muito nesse poema, porque não há limites, não podemos pensar pequenino. Há 500 anos nós descobrimos o que mais ninguém descobriu, nós temos ainda essa capacidade. Não podemos ter complexos, se os outros lá chegam nós também conseguimos."

No entanto, quando Sousa Tavares lembrou que Elvira Fortunato é a mais provável "candidata a trazer para Portugal o nosso terceiro Prémio Nobel", a investigadora garantiu que isso não faz parte das suas preocupações: "Não ando atrás do Nobel, não trabalho para prémios. É claro que os prémios são muito bons e inspiram os mais novos. Se vier, virá."

O Nobel é o topo do topo, qualquer pessoa deseja receber esse galardão na sua área", admite. Mas "se calhar na área da ciência ainda me está a faltar alguma coisa", diz Elvira Fortunato. "É uma área extremamente competitiva. Podemos fazer ciência de excelência mas isso pode não chegar ao cidadão, pode não haver retorno para os cidadãos e para e economia".

Engenheira de formação, a investigadora de 56 anos é pioneira mundial na electrónica de papel, nomeadamente em transístores, memórias, baterias, ecrãs, antenas e células solares. É considerada a "mãe" do transístor de papel. Professora catedrática, é atualmente vice-reitora da Universidade Nova de Lisboa.

A Miguel Sousa Tavares, Elvira Fortunato garantiu que gosta tanto de investigar como de ensinar: "E gosto de ensinar aquilo que investigar". "A minha vida nunca foi projetada: quando entrei para a universidade eu sabia que queria ser engenheira, só depois é que surgiu o bichinho da investigação", conta.

E fez questão de explicar que a investigação não é algo desligado da realidade, pelo contrário: toda a sua investigação, seja na área dos materiais seja na nanotecnologia, tem sempre um objetivo prático. Elvira Fortunato deu como exemplo a sua investigação na eletrónica transparente: "Usamos os materiais que são usados nas lentes oftálmicas para fazer transístores e circuitos integrados", e que podem concretizar-se por exemplo em mostradores e ecrãs transparentes.

"Imagine poder ter o GPS embebido no pára-brisas" do carro. Ou então, imagine ser o Tom Cruise no filme "Minority Report" e poder ter todas as informações que precisa nos seus óculos. "Já não é ficção científica, é realidade."

Além disso, como trabalha com "materiais sustentáveis, alternativos ao silício, como por exemplo óxido de zinco", esta é uma área que olha para o futuro e procura poluir o menos possível. "O nosso caixote do lixo está sempre vazio, tudo se aproveita", diz.

Ao anunciar o prémio, o júri do Prémio Pessoa destacou o “percurso académico de grande consistência” de Elvira Fortunato, bem como “uma carreira de excepcional projecção dentro e fora do nosso país". O júri sublinhou o impacto das suas “inovações e invenções”, destancando o desenvolvimento do “transístor de papel” e a criação do primeiro ecrã do mundo totalmente transparentes, talvez as mais conhecidas das muitas inovações que fazem parte da sua carreira.

Sobre este prémio, Elvira Fortunato admite que ficou "muito orgulhosa": "É acima de tudo é um prémio dado a nível nacional e o reconhecimento do meu país é muito importante", diz.

Elvira Fortunato confirmou que há cada vez mais mulheres a fazer investigação científica em Portugal.

E, por fim, fez um elogio ao antigo ministro da Ciência, Mariano Gago: "Se eu aqui estou a ele o devo", disse, referindo-se ao enorme investimento feito na ciência nessa altura, que permitiu tornar o meio competitivo, em pé de igualdade com o que se faz noutros países.

Maria João Caetano