O exame à dentição dos vários corpos sepultados num mosteiro medieval alemão levou a uma descoberta inédita. Ao microscópio eram visíveis vários pigmentos, de um azul vivo, acumulados nos dentes de um esqueleto de mulher.

A análise à dentição permitiu decifrar que o pigmento era “ultramarinho”, uma espécie de tinta ancestral, de cor azul, fabricada a partir do pó de lápis lazúli. Esta pedra provém de uma região específica do Afeganistão e chegou à Europa através da Rota da Seda. Era um bem tão dispendioso que nem artistas como Michelangelo tinham meios para o pagar. Em tempos, este tesouro azul chegou a valer o seu peso em ouro.

O “ultramarinho” era especialmente usado para colorir o manto da Virgem Maria nas pinturas medievais, o que leva os cientistas a acreditar que a mulher alemã seria provavelmente escriba ou pintora.

De acordo com os especialistas, esta mulher viveu algures entre os anos de 997 e 1162, e deveria ter entre 45 e 60 anos na altura da sua morte. O seu corpo foi sepultado num mosteiro associado a uma comunidade religiosa feminina da Idade Média.

Ao contrário do que se pensa, não eram apenas os monges que produziam os manuscritos e as pinturas de então. As freiras também tinham um papel ativo neste tipo de atividade, especialmente quando estavam em causa trabalhos meticulosos e complexos.

"Abre-se um novo caminho"

Mark Clarke, historiador na Universidade Nova de Lisboa, não esteve envolvido neste estudo, mas afirma que se abriu um precedente para novas descobertas. Se este tipo de pigmento fica incrustado no tártaro, é possível que o mesmo aconteça com pequenas fibras, metais ou tintas. Este tipo de avanço permitiria começar a identificar carpinteiros, artesãos ou metalúrgicos da era medieval.

“Abre-se um novo caminho na arqueologia”, revela o investigador ao The Atlantic.

O que, inicialmente, era um estudo aos hábitos alimentares medievais, depressa evoluiu para algo mais.

“Encontrámos grãos de amido e pólen, mas também reparámos que havia algo muito azul que brilhava – não era apenas um ou dois fragmentos do mineral, mas centenas deles. Nunca tínhamos visto nada assim (...) o tártaro dos dentes é muito interessante porque é a única parte do nosso corpo que fossiliza enquanto ainda estamos vivos”, explicou à BBC a investigadora Christina Warriner.

Em relação à origem do mineral, a dúvida permanece: como é que um material tão raro foi parar aos dentes de uma freira alemã?

Segundo Monica Tromp, uma das investigadoras do estudo, o cenário mais provável é que a mulher fosse pintora e tivesse o estranho hábito de lamber a ponta do pincel enquanto pintava, ou então através da inalação, enquanto preparava o pigmento para si, ou para outra pessoa.

Os detritos que se acumulam nos dentes sob a forma de tártaro contam a história do que comemos e do que fazemos: “Os nossos dentistas estão tão preocupados em tirá-lo que nem pensam nos futuros arqueologistas!”, brincou Christina Warriner.