O título desta reportagem parece ter um tom humorístico, mas o assunto é bem sério. Casar através de uma aplicação para telemóvel, ou pelo menos preencher todas as formalidades que governo exige, e um bot que oferece cerveja, depois de respondidas uma série de perguntas, são ideias já concretizadas por empresas portuguesas da área da tecnologia.

Empresas cujos objetivos principais não se restringem a esses produtos, claro, mas que têm estas possibilidades no seu portfolio e que as distinguem de outras oriundas de mercados maiores que o português.

TIMWE, WIT software, Aptoide e YDigital Media são exemplos de sucesso demonstrado dentro e além-fronteiras. Esta semana estão no Mobile World Congress, a maior feira de dispositivos móveis, que decorre em Barcelona, para mostrar o que fazem e em busca de novos contactos. A TVI24 visitou os stands.

Com escritórios em 30 países, que operam para mais de 80, a TIMWE é a empresa portuguesa mais internacionalizada. Tem sede em Lisboa, mas o mercado nacional apenas representa cerca de 1% da sua faturação. Especializada, desde há 15 anos, em soluções mobile para operadores e governos, cresceu através dos mercados emergentes e hoje está ligada a quase 300 operadores em todo o mundo, com um potencial para chegar a 3 mil milhões de pessoas.

Mais concretamente, o grupo divide-se em três marcas: a DIGIWE, TECHWE e GOVEWE, cada uma especializada num setor diferente. A primeira dedica-se ao marketing para operadores e marcas, campanhas e pagamentos mobile. A segunda está mais ligada às tecnologias da informação (IT), acessoria de IT e plataformas para operadores. A terceira junta estes serviços, mas dirige-os para um alvo específico: os governos.

É provável que já tenha utilizado ou contactado com algum dos serviços realizados pela TIMWE, desconhecendo que o estava a fazer. A DIGIWE distruibui, por exemplo, os conteúdos da marca de Cristiano Ronaldo (CR7) para o mobile e serve de intermediária para pagamentos online, como os que se fazem dentro dos videojogos, explicou, à TVI24, Mariana Jordão, diretora de estratégia corporativa.

Imagine que estava a jogar no Facebook e precisa de comprar um item, uma espada por exemplo, que custa 50 cêntimos. Se não quiser introduzir os dados do cartão de crédito pode escolher a opção para lhe retirarem o dinheiro do saldo do telemóvel. A TIMWE é esse intermediário. Estamos em 300 operadoras móveis. O Facebook não quer fazer um acordo com as operadoras de cada país, usa intermediários como nós que lhes garantem essa possibilidade.”

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A GOVWE aceita pedidos de governos para aproximar a entidade dos cidadãos. É aqui que entra a tal aplicação que permite ao utilizador pedir a documentação para um casamento. Foi desenvolvida para o governo do Dubai, que queria uma aplicação que simplificasse as burocracias.

No Dubai existe uma espécie de Loja do Cidadão desenvolvida por nós. Tem vários serviços, dá, até, para casar. Na verdade, é mais tratar de tudo o que é preciso, como pedir o certificado do casamento, [mas é um dos serviços possíveis]. Em vez do cidadão se deslocar aos vários departamentos do Estado, como as finanças, tens tudo na aplicação do telemóvel. No fundo, o cliente é o governo e nós desenvolvemos as soluções que permitem a aproximação aos cidadãos.”

A TIMWE desenvolveu, também nos Emirados Árabes Unidos, uma outra aplicação que mede a felicidade dos cidadãos, mas antes disso já tinha criado um sistema na Colômbia chamado “Conversemos”, um programa do governo para comunicar com as pessoas por SMS. Servia para informar, por exemplo, “se tinham de assinar algum documento, que tinham de ir votar”.

Nunca trabalharam com o Governo português, e o mercado nacional não é muito atrativo, mas isso “não é uma questão de preferência”, explicou Mariana Jordão.

“Já trabalhámos com os operadores todos em Portugal, mas hoje em dia os negócios no nosso país não representam talvez 1% da nossa faturação”, acrescentou.

Temos imenso orgulho de ser um grupo português, mas o mercado tem duas particularidades que para nós não são atrativas: primeiro é pequeno e depois é bastante avançado e nós focámos-nos muito nos mercados emergentes, que eram onde estavam as oportunidades. Mesmo a nível de operadores procurámos aqueles que estavam mais atrasados tecnologicamente, Portugal é mais maduro e moderno.”

É esta presença global que leva a empresa ao MWC, onde “estão operadores do mundo inteiro”. É o quarto ano consecutivo que têm um stand próprio. Ainda assim, um terço dos anos que outra empresa portuguesa já cumpriu na feira: a WIT software.

Logo quando nos aproximamos, há um detalhe que salta à vista no stand da WIT Software. Estamos em Barcelona, mas sobre o balcão há uma torre da cerveja Sagres. No mínimo suscita curiosidade. Porém, se puxar a alavanca vai perceber que não funciona. É normal, para conseguir uma cerveja terá de falar com a Kelly, o bot criado pela WIT para o Facebook Messeger, e responder a cinco perguntas. Se acertar corretamente é gerado um QR Code que depois ativa a torre automaticamente.

A WIT não quer com isto abrir um bar automático, longe disso. Esta foi a forma que a empresa encontrou para chamar a atenção para a nova linha de bots que está a desenvolver para várias plataformas: RCS, Facebook Messenger, Telegram, SMS, entre outros.

No entanto, não foram os bots que levaram à criação da WIT. A empresa nascida em Coimbra – hoje com sede em Lisboa e com escritórios no Porto, Leiria, Düsseldorf e Reading –, presente em 42 países e que exporta 95% do que produz, começou por operar no mercado das telecomunicações. Esse alvo mantém-se até hoje. A empresa foi pioneira no RCS (Rich Communication Suit), um sistema da GSMA criado para substituir as tradicionais SMS.

A aplicação da WIT permite enriquecer chamadas e mensagens de texto, de uma forma que aplicações como o Facebook Messenger não conseguem, como explicou Ricardo Loureiro, quality manager da WIT. Até porque, como funciona através de um operador (em Portugal, a Vodafone) tem um nível de qualidade e segurança que “aplicações como o FB Messenger ou o Whatsapp não garantem”.

A Wit foi a primeira empresa a nível mundial que conseguiu a certificação [para o RCS]. Somos o maior fabricante de aplicações RCS a nível mundial. [A nossa app] é basicamente uma aplicação de chat e chamadas, na qual podemos fazer o que já fazemos noutras, mas que podem ser enriquecidas. Ao realizar a chamada podemos adicionar uma mensagem [que aparece no ecrã] que diz que ‘esta chamada é urgente’, por exemplo. Posso tirar uma foto para mostrar o local onde me encontro ou para descrever a situação urgente. Posso colocar um texto. Tudo isso vai aparecer no ecrã do recetor.”

“Todo este conjunto de possibilidades que são feitas sobre a chamada normal é o RCS”.

Veja abaixo o vídeo da demonstração no MWC.

Uma loja de aplicações com 150 milhões de utilizadores

No ramo das aplicações está outra empresa portuguesa que visitámos no MWC: a Aptoide. Uma das maiores lojas de aplicações a nível mundial, com 700 mil apps e 150 milhões de utilizadores. Pouco conhecida em Portugal (onde a maioria usa as lojas da Google e Apple), mas muito popular no Sudeste Asiático, América Latina e Norte de África.

A empresa nascida em 2011 está a crescer rapidamente, só em 2016 triplicou o número de utilizadores ativos. A sede fica em Lisboa, mas a Aptoide já tem escritórios em Shenzhen, na China, e em Singapura.

O que diferencia esta loja online das apps das duas multinacionais norte-americanas é a inexistência de restrições de utilização ou acesso. Funciona como o Youtube das aplicações: qualquer pessoa pode colocar, ou descarregar, uma app na loja sem qualquer email ou conta. A Aptoide faz, depois, o controlo posterior para que não existam problemas com as apps.

Daniel Kisluk, diretor do marketing digital da Aptoide, explicou que esta é uma das razões para o sucesso da app fora da Europa e EUA.

Nos países em desenvolvimento muitas pessoas não tem um computador, ou simplesmente não têm uma conta Google, mas têm um smartphone. Nós não pedimos qualquer login para fazer downloads e isso é muito bom para esse países. Muita gente nem sequer quer uma conta no Gmail. Depois também tempos um publico muito jovem que usa a nossa plataforma, miúdos de 13e 14 anos, que não têm contas Google, nem cartões de crédito e só querem jogar.”

A aplicação é gratuita, assim como todas as apps disponíveis. A utilização também é grátis. O modelo de negócio, esclareceu Kisluk, passa por outras vias.

Fazemos dinheiro por duas vias. A primeira é dentro da própria loja: publicitamos outras aplicações que queiram ser promovidas. A segunda é em parceria com aplicações que estejam dentro da nossa loja. Por exemplo, num jogo que tenha conteúdo pago (como níveis exclusivos), nós fazemos de intermediário e ficamos com uma parte do dinheiro da venda.”

Ligado ao marketing e à publicidade no mobile está, também, Nuno Machado, CEO da YDigital Media, que visitou por mais um ano o MWC.

A empresa que gere é mais um exemplo de sucesso no mercado global, com escritórios já em nove países, apenas com seis anos de existência. A YDigital Media dedica-se à criação de campanhas publicitárias e marketing digital para o mobile, com foco na publicidade adaptada aos telemóveis, e criação de aplicações.

Trabalhamos em Portugal, mas somos uma empresa com escritórios em cidades como São Paulo, Madrid, Bogotá, Paris, Cidade do Cabo, então temos uma vasta experiência em global marketing. Somos um 'mobile enabler' em termos de publicidade para as grandes agências de meios e trabalhamos com grandes marcas, como a Coca-Cola ou a Unilever. Temos um foco muito grande em 'app activation', e trabalhamos com grandes empresas de 'ecommerce' e grandes anunciantes da parte mobile e aplicações.”

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Desde logo, a empresa nunca tencionou competir apenas no mercado português. O mercado mobile é global e a estratégia da YDigital Media passou, desde cedo, por competir com uma “concorrência mais forte”.

Fomos uma empresa sempre focada na internacionalização. Ficámos internacionais logo desde início. Estamos com escritórios no Brasil há mais de cinco anos e a empresa nasceu há seis. Obviamente que existe uma concorrência muito mais forte, mas temos conseguido fazer o nosso trabalho e fazer grandes parcerias.”

Nuno Machado sublinha o grande problema do mercado português, evidenciado pelos outros entrevistados. As tecnologias mobile pedem um mercado significativamente maior.

Portugal É um mercado interessante, mas para o nível de estrutura e de inovação que estamos a desenvolver acaba por ser pequeno. Ou seja, para uma empresa que opera para um mercado global, o mercado português é interessante e fazemos diversos projetos, mas em termos de dimensão é impossível ter uma dimensão considerável, porque estamos a falar de um mercado de 10 milhões de pessoas.”