Sabia que a agora vulgar cirurgia ocular a laser, para corrigir problemas como miopia, hipermetropia e astigmatismo, nasceu de um acidente de trabalho? Gérard Mourou, último Nobel de Física, conta, em declarações ao jornal El País, como a descoberta aconteceu. E nem foi ele que inicialmente detetou as potencialidades.

Um dia, em 1992, o estudante Detao Du, que trabalhava com Mourou, estava a alinhar os lasers de uma das máquinas do laboratório, quando, acidentalmente, a luz lhe entrou pelos olhos, provocando-lhe uma lesão. O chefe, Gérard Mourou, fez questão de o acompanhar ao hospital.

A precisão do corte provocado na córnea do de Detao Du surpreendeu o médico das urgências que o atendeu de tal forma que questionou o paciente sobre o tipo de laser que tinha provocado aquela lesão.

Gérard Mourou já estudava as potencialidades dos lasers de alta precisão, mas a surpresa do médico aguçou a curiosidade do físico, que resolveu estudar as os efeitos que poderia ter esta ferramenta na oftalmologia.

Menos de 30 anos depois, esta técnica é amplamente usada na oftalmologia e já serviu para tratar mais de 20 milhões de doentes, estima o próprio Mourou.

Gérard Mourou conta ainda que, anos antes, em meados da década de 1980, tinha proposto a uma das suas estudantes que desenvolvesse a sua tese de doutoramento sobre lasers de alta intensidade. “A ideia pareceu-lhe demasiado simples. Estava preocupada que não fosse suficiente para uma tese”, recorda agora com algum humor.

A estudante, que então tinha 25 anos, era Donna Strickland, com quem Mourou dividiu, no ano passado o prémio Nobel da Física, pelas “suas invenções disruptivas no campo da física do laser”, como então sublinhou o júri.

Prestes a completar 72 anos, Gérard Mourou continua a investigar novas aplicações para o laser, uma ferramenta que o francês compara a “um golpe de karaté”, por ser rápido, forte e preciso. Uma das suas metas é aplicar os lasers em áreas como a eliminação de resíduos de centrais atómicas, que agora se acumulam em armazéns. “Há quatro átomos que são realmente perigosos, porque podem libertar radioatividade durante centenas de anos: neptúnio, cúrio, amerício e plutónio. O neptúnio, tem uma vida durante 2,1 milhões de anos. Com o nosso laser podemos acelerar as partículas, de modo a fissionar os núcleos desses átomos e obter outros com uma vida muitíssimo menor, com um tempo de vida que pode mesmo não ir além de minutos”, explica.