Duas dezenas de “pagadores de promessas”, de Norte a Sul do país, têm anúncio publicado em sites de vendas na Internet, disponibilizando-se para peregrinar até Fátima por preços que variam desde um euro até aos cinco mil euros.

A publicação de notícias sobre “pagadores de promessas” nas vésperas das celebrações que assinalam o Centenário das Aparições, a visita do Papa e a canonização dos pastorinhos fez com que, só no site do OLX, surgissem esta quarta-feira mais três ofertas destes “prestadores” de um serviço que é refutado tanto pelo Santuário de Fátima como pela diocese de Leiria-Fátima.

A visibilidade de Carlos Gil, “pagador de promessas” há 15 anos, terá contribuído para que, desde abril, se tenha multiplicado a publicação de anúncios no OLX e, embora menos, no Custojusto, com alguns dos anunciantes a “plagiarem” o texto com que aquele se apresenta no seu blogue peregrinoorg.wordpress.com.

Também os preços de Carlos Gil – 2.500 euros a partir de Lisboa, mais 250 euros para rezar o terço e 25 euros para colocar uma vela – servem de referência a vários dos anunciantes (que acrescentam a palavra “negociável”), embora também se encontre quem anuncie o valor de um ou de cinco euros, e outros proponham fazer orçamento à medida do pedido.

Manuel Jesus Londreira, 76 anos, de Serradelo, Castelo de Paiva, será caso raro no cumprimento de promessas alheias sem cobrar nada.

Os argumentos usados pelos “pagadores de promessas”, que invocam uma tradição da Idade Média e atribuem ao dinheiro o simbolismo do “sacrifício” (quem paga teve que trabalhar para ganhar dinheiro e prescindiu da comodidade que esse valor lhe poderia dar), não são reconhecidos pela Igreja Católica.

Em dezembro, depois de um polémico anúncio de uma empresa, disponibilizando a oferta de promessas no Santuário de Fátima por altura do natal - afirmando replicar uma prática do Santuário de Lourdes, em França, que permite cumprir promessas ‘online’ -, a diocese de Leiria-Fátima e o santuário reprovaram este tipo de práticas.

O Bispo de Leiria-Fátima reprova a transformação da devoção religiosa e das expressões de fé em produtos comerciais e o seu aproveitamento para fins lucrativos. O louvável é que as pessoas ou grupos se tornem gratuita e compassivamente intercessoras ou portadoras das necessidades, sofrimentos e preces dos seus irmãos nos santuários e outros locais de oração”, afirmava o comunicado.

“Alertamos os fiéis para que, em situações problemáticas ou por devoção mal entendida, não se deixem enganar por ofertas e promessas fáceis de serviços ou benefícios religiosos. Procurem pedir esclarecimento ou conselho junto de sacerdotes ou de outras pessoas religiosamente fiáveis e bem formadas, antes de aceitar uma proposta ou solução. A misericórdia de Deus e a ternura da Virgem de Fátima são gratuitas e podemos encontrá-las em todo o lado, no Santuário de Fátima e igualmente nas igrejas e santuários próximos de nós”, acrescentava.