O dia-a-dia dos doentes com paralisia causada por acidente pode estar a mudar a bom ritmo. Dois estudos publicados esta segunda-feira mostram como um tratamento inovador desenvolvido nos Estados Unidos tem tido sucesso. Trata-se de um estimulador implantado na espinal medula que, combinado com trabalho físico, permite aos paraplégicos voltarem a andar.

Kelly Thomas, agora com 24 anos, é uma em quatro pacientes com paralisia que testou este tratamento desenvolvido pelo Centro de Pesquisa de Doenças da Espinal Medula de Kentucky, da Universidade de Louisville, nos EUA.

Em 2014, aos 19 anos, Kelly teve um grave acidente rodoviário que lhe tirou a habilidade para se mover do peito para baixo. Ficou paraplégica, mas não quis aceitar a condição. Contra as crenças da equipa médica, escreve a CNN, a jovem garantiu à mãe que voltaria a andar, por mais pequenas que fossem as perspetivas.

A vida de Kelly, que, curiosamente, estudava fisioterapia, mudou radicalmente nesse dia de julho. E voltou a mudar no início de 2017. A dela e a de outros três doentes.

“Só mostra a capacidade da espinal medula”

São quatro os paraplégicos a quem foi implantado o estimulador na parte de baixo das costas, na coluna, nos laboratórios de Louisville.

De acordo com um dos estudos, publicado no Diário de Medicina de New England, dois dos quatro pacientes com “completa lesão motora” – ou seja, sem movimentos voluntários – voltaram a andar, com ajuda de canadianas, depois de o dispositivo estimulador lhes ter sido aplicado e de terem feito intenso tratamento físico.

Isto tem que mudar a nossa forma de pensar sobre as pessoas com paralisia”, afirmou Susan Harkema, uma das responsáveis pelo projeto e especialista em cirurgia neurológica naquela universidade.

É incrível. Estes desenvolvimentos dão-nos ferramentas para desenvolvermos novas estratégias e metodologias para a recuperação de pessoas com lesões crónicas na espinal”, continuou.

Claudia Angeli, também na organização e investigadora do Centro de Pesquisa em Locomoção Humana do Instituito de Reabilitação Frazier, em Louisville, acredita que este foi um passo enorme no estudo da espinal medula.

Só mostra a capacidade da espinal medula e o quanto estamos a aprender sobre o uso da estimulação epidural em combinação com terapia”, frisou Angeli.

“A força vem de dentro”

O estimulador não tem como objetivo fazer mexer as pernas. Serve, porém, para estimular neurónios e nervos, permitindo que os doentes controlem de forma consciente os movimentos.

Depois de aplicado o estimulador, os quatro doentes tiveram que ser submetidos a intensas práticas de exercício físico para chegarem ao resultado a que chegaram.

Para conseguirem hoje andar, tiveram terapia duas vezes por dia, durante cinco dias por semana durante muitos meses. Kelly fez terapia durante dez desde que recebeu o implante.

Os quatro conseguem agora manter-se de pé de forma independente e dois deles conseguem já andar.

O estimulador facilita os meus movimentos, mas a minha força vem de dentro”, sublinha Kelly.

Harkema e Angeli acreditam que os resultados positivos se devem não apenas ao aparelho tecnológico, mas à combinação com o tratamento fisioterapêutico.

Esta tecnologia, além de fazer com que voltem a ter as funções de locomoção, devolveu aos quatro doentes funções sexuais e de controlo da bexiga.

Estímulo com sucesso

Além deste recente estudo, ao longo dos últimos anos outras experiências foram sendo feitas até se chegar a este ponto. Antes, 14 pessoas com paralisia foram sendo acompanhadas e testes com outra tecnologia foram feitos com sucesso.

Uma versão antecessora do recente estimulador da Universidade de Louisville – um estimulador epidural implantado nas costas dos doentes – já mostrava sinais de que era possível os neurónios receberam sinais do cérebro tal como acontecia antes do acidente que deu origem à paralisia.

Os catorze experienciaram movimento voluntário depois da aplicação do aparelho, tal como mostraram melhorias ao nível das funções intestinais e da bexiga.

“Conexões podem ser recuperadas”

Além deste estudo e destes resultados, outro estudo, divulgado na segunda-feira na publicação Medicina Natural, mostrou semelhantes resultados.

Um homem, paralisado desde 2013, ganhou habilidade para se levantar e andar, mesmo com ajuda, devido a trabalho físico e um implante na espinal medula, num processo de investigação levado a cabo pela clínica Mayo e a Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

“O que isto nos mostra é que essas ligações nervosas debaixo de uma lesão na espinal medula podem ainda funcionar depois da paralisia”, destacou Kendall Lee, um dos investigadores e diretor dos laboratórios de engenharia neural da clínica Mayo.

Monica Perez, que não tem ligação com nenhum dos estudos, mas especialista em cirurgia neurológica da Universidade de Miami, acredita no sucesso e na abertura de um novo caminho no estudo da paralisia.

Estes estudos demonstram que as conexões no sistema nervoso central podem ser recuperadas, mesmo que a lesão tenha vários anos”, afirmou a especialista de Miami.