Um processo que usa Inteligência Artificial (IA) para separar e tornar mais nítidas imagens escondidas em pinturas antigas foi usado no Retábulo de Ghent, indica um estudo hoje publicado na revista Science Advances.

Investigadores de uma equipa da National Gallery, da Universidade de Duke e da University College London (UCL), em que participou o cientista português Miguel Rodrigues, usaram este processo em imagens do retábulo de grandes dimensões de 12 painéis, considerado uma obra-prima da pintura flamenga do século XV.

De acordo com os resultados do estudo agora publicado, os cientistas conseguiram separar com clareza as imagens das pinturas de ambos os lados dos painéis pintados pelos irmãos Hubert e Jan Van Eyck, que se encontram na Catedral de Bavo, na Bélgica.

Este novo processo que usa IA, segundo o estudo, tem a vantagem de separar as imagens complexas que habitualmente são conseguidas por raios-x, processo muito útil para examinar e restaurar pinturas, que avalia a condição da peça e também as técnicas usadas pelo pintor.

Os resultados da pesquisa foram reunidos no estudo "Artificial Intelligence for Art Investigation: Meeting the Challenge of Separating X-ray Images of the Ghent Altarpiece' ("Inteligência Artificial na investigação em arte: Enfrentando o desafio de separar imagens de raio-x do Retábulo de Ghent", em tradução livre do inglês), no qual demonstram como são usados os algoritmos para estudar as imagens de raio-x com características da frente e verso do conjunto.

No entanto, o raio-x tem uma natureza de penetração tão forte que agrega tudo por onde passa, produzindo imagens difíceis de interpretar, sobretudo nos casos em que há painéis com pinturas de ambos os lados, como no caso do Retábulo de Ghent, ou quando o artista faz várias pinturas sobrepostas na mesma tela.

Ao separar as imagens complexas conseguidas pelo raio-x, o algoritmo criado por IA proporciona a historiadores, conservadores e cientistas que investigam património, a informação necessária para melhor entender as pinturas antigas, e também para as restaurar e proteger.

No caso do Retábulo de Ghent, os responsáveis pelo projeto esperam compreender melhor o trabalho realizado pelos irmãos Van Eyck e as suas técnicas de trabalho usadas na época.

Esta abordagem demonstra que as técnicas que usam Inteligência Artificial, alimentadas com conhecimentos aprofundados, podem ser usadas potencialmente para resolver desafios levantados no mundo da investigação sobre a arte", sustenta, no comunicado divulgado acerca do artigo, o cientista português Miguel Rodrigues, do Departamento de Engenharia Eletrónica e Elétrica da UCL.

Com os resultados agora obtidos, "existe a expectativa do desenvolvimento deste processo na revelação de pinturas escondidas", acrescenta o investigador que trabalhou anteriormente na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Os cientistas ponderam usar futuramente estes processos com IA noutros setores, como a saúde, defesa e segurança.

/ AG com Lusa