Cientistas no Reino Unido detetaram, pela primeira vez, partículas de ar poluído na placenta de mulheres grávidas. A descoberta coloca a possibilidade de a poluição nas grandes cidades chegar aos bebés durante a gravidez.

De acordo com a BBC News, investigadores da Universidade Queen Mary, em Londres, produziram a primeira evidência científica de que os componentes da poluição do ar atingem a placenta depois de passar pelos pulmões e entrar na circulação sanguínea.

O estudo foi efetuado a partir da análise de placentas de cinco mulheres não fumadoras que tiveram bebés saudáveis no hospital da universidade londrina. Os cientistas examinaram os macrófagos, células do sistema imunológico que "comem" partículas prejudiciais ao organismo humano. Estas células estão presentes nos pulmões e também fazem parte do sistema que protege o feto no tecido da placenta.

Usando um microscópio ótico, os investigadores encontraram 72 partículas negras entre 3.500 células. Essas partículas eram iguais às partículas de poluição encontradas nos macrófagos dos pulmões.

Ainda não sabemos se as partículas que encontrámos podem passar para o feto, mas as pesquisas sugerem que isso é possível", disse à BBC News Brasil a pediatra Norrice Liu, que integra a equipa de investigadores da Universidade Queen Mary. "O nosso próximo passo é examinar mais mulheres, mas também queremos saber como elas vivem e qual o nível de exposição que elas têm à poluição."

O sistema respiratório funciona como uma espécie de peneira que filtra as partículas de ar poluído. As maiores costumam ser destruídas pelas células de defesa dos pulmões, mas as mais finas podem entrar na circulação sanguínea e chegar a outros órgãos do corpo.

O estudo foi apresentado neste mês de setembro no Congresso Internacional da Sociedade Respiratória Europeia (ERS, na sigla em inglês), mas ainda não foi publicado em revistas científicas.

Em 2016, um estudo da Universidade de Lancaster, feito em 37 pessoas, encontrou partículas de poluição nas células cerebrais.

"Catástrofe de saúde pública mundial"

Nos últimos anos, estudos científicos têm vindo a demonstrar que a exposição a partículas poluentes durante a gravidez aumenta o risco de um parto prematuro e de que o bebé nasça com menos peso. Um estudo britânicoque analisou 500 mil nascimentos e foi publicado em novembro de 2017, confirmou a ligação. Os autores desse estudo afirmaram que se trata de uma "catástrofe da saúde pública mundial".

Em trabalhos anteriores, investigadores brasileiros e estrangeiros estabeleceram ligações entre a poluição e uma maior probabilidade de que o feto exposto desenvolva hipertensão e outras doenças.

Já temos evidências suficientes de que as nanopartículas de poluição chegam a todos os órgãos. Mas qual vai ser a resposta do feto depende da genética do bebé, de características familiares e epigenéticas, ou seja, do que acontece durante gravidez", explicou à BBC Brasil  Paulo Saldiva, do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Num artigo publicado em 2016, o investigador salientou que "a exposição pré-gestacional, gestacional e no início da vida aos poluentes do ar está associada com o comprometimento da função pulmonar e outras condições respiratórias negativas na infância e esses efeitos podem durar até à vida adulta".

Os mecanismos pelos quais isso acontece ainda não são completamente conhecidos, mas podem incluir alterações no ADN do feto e alterações no corpo da mãe, como stress e inflamação das células e hipoxia (baixo teor de oxigénio nos tecidos orgânicos), referia o mesmo artigo.

"A verdade é que a mãe não pode fazer nada do ponto de vista individual para se proteger dessa chegada de partículas tóxicas ao bebé", alertou Paulo Saldiva.