Desde cedo que as redes sociais nos enredaram neste ritmo frenético do vício do status e do feedback ao status ou da notificação da última novidade que achamos não dever perder.

Para quem ainda se lembra, nos primórdios do Facebook eram às dezenas os emails que nos invadiam a caixa de correio com notificações sobre reações ao que havíamos publicado ou pedidos de amizade “enquanto estivemos fora” (‘fora’, pois claro: fora da rede, e estar fora do que interessa; e ninguém gosta de ficar de fora). Depois foram os likes (foram, ou ainda são?) - quantos já recebeu aquela foto? No YouTube os alertas sobre quantos subscritores no canal, ou quantas visualizações do vídeo. Idem no Instagram. Idem para todos ao número de comentários já deixados.

O terreno permitiu até o surgimento de ferramentas próprias, como a KLOUT, onde podemos reunir todos os nossos social-logins e obter um ranking de popularidade com base nas reações à nossa presença multi-rede, e perceber semana-a-semana como evoluímos; o Klout acabou mesmo por obter uma parceria com o motor de busca Bing, da Microsoft, para com isso enquadrar melhor os resultados das pesquisas.

E no entretanto, eis que o número de ícones no nosso telemóvel cresce - mais uma rede social. Nasceu. Pop! Já reparou que no tempo do Computador Portátil o que mais tinha no seu desktop eram pastas de ficheiros e apenas algumas aplicações (chamávamos-lhes “programas de computador”)? Hoje o fundo do ecrã do seu telemóvel enche-se de dezenas de ícones de aplicações ao ponto de as ter de arrumar em pastas. Sinal dos tempos. Mais uma app. Mais um jogo. Mais uma rede social. Novos avisos. Mais conteúdos. Mais  proximidade ao que gostamos. Mas eis que de repente se vai popularizando uma nova palavra também: FOBO.

FOBO é o acrónimo para “fear of being offline”.  Tem surgido ao lado de títulos como “Preferia dar um rim a dar o meu telemóvel” (Guardian) ou outros de pendor mais ligados ao universo do Marketing Digital. O termo FOBO pretende descrever a sensação desconfortável que alguém tem quando fica sem bateria no telemóvel ou sem sinal de internet, e portanto offline... ou “fora”.

FOBO é aliás uma das tendências que entra pela primeira vez para o “Tech Trend Report 2017” do Future Today Institute. E porque é que é um Trend? Argumenta o relatório que a nossa capacidade de “desligar” está a enfraquecer, o que significa um mar de oportunidades para marketers que queiram mergulhar no mundo online e conviver na grande festa pela noite dentro do digital. Sem hora de fim à vista.

Aparentemente, e ainda há quem os analise assim, estes sinais superficiais (pedidos de amizade, likes, número de comentários, visualizações dos nossos vídeos, etc.) poderiam querer dizer que somos relevantes, mas na verdade eles mais não dizem do que aquilo que é popular. Mesmo no capítulo do marketing e do investimento em marketing de influência, as marcas vêm observando que popularidade nem sempre se coaduna diretamente com poder de influência, devendo os KPI’s ajustarem-se com os que servem para aferir poder de comunicação.

Mas é um terreno novo e mágico. De repente, o feedback é imediato e não vem apenas pelas vendas ou estudos de mercado ou pelo call-center dos que só ligam para reclamar. O fenómeno tem sido idêntico à dimensão do BigBang do final dos anos 50, quando o marketing saltou para os elementos emocionais em detrimento dos funcionais.

Basta ver o site da American Marketing Association – “Social Media Triggers a Dopamine High”

“That rush of happiness and contentment is thanks to dopamine, a neurochemical known as the “reward molecule” that’s released after certain human actions or behaviors, such as exercising, or setting and achieving a goal. While physical activity is most commonly linked to dopamine’s release, one form of modern-day, sedentary behavior now gets some credit, too. According to a study of Australian consumers by San Francisco-based media-buying firm RadiumOne, social media usage is a dopamine gold mine. “Every time we post, share, ‘like,’ comment or send an invitation online, we are creating an expectation,” according to the study. “We feel a sense of belonging and advance our concept of self through sharing.”

Mas porque tudo irrompeu assim tão de repente?

Os novos hábitos explodem de forma exponencial graças ao mobile. Sempre connosco e sempre ligados. Eis uma nova fonte de ligação aos outros e ao mundo, de satisfação mas também de pressão: vibrações constantes e sonoros avisos lembrando-nos a hora da próxima reunião, um novo email pessoal, um novo email profissional, uma notificação push a avisar-nos de uma notícia de última hora, uma mensagem nova do grupo de Whatsapp, avisos do Instagram, do Linkedin, do Snapchat, do Facebook... E antigamente a única vez que o telemóvel tocava era para nos acordar ou quando recebíamos uma chamada ou SMS.

A mudança brusca não vem imaculada, de facto. Fará em março 1 ano que um amplo estudo nos EUA revelou que os participantes entre os 19 e os 32 anos de idade que conferiam mais frequentemente as redes sociais durante a semana tinham 2,7 vezes mais probabilidades de desenvolver um estado de depressão.

Do outro lado da barricada temos a compensar a companhia, a luta contra a solidão, a portabilidade do trabalho que nos permite em multi-tarefa o que antes nos obrigava a ficar atrás da secretaria até tarde (“estou só à espera de receber um email... saio já a seguir...”).

Há quem apregoe que, no fundo, a dependência que hoje se questiona não é diferente à que outrora se atirou sobre a televisão, simplesmente agora noutro media, os social media. Quando pensamos nas redes sociais e no nosso dia a dia, contudo, é uma miríade de utilizações que se mistura, das telecomunicações às celebrações por uma nação em festa ou debaixo de tristeza, da ampliação de conhecimento sobre um tema às saudades que se matam pela distância. A sua capacidade para nos entreter faz-nos pensar num “tempo bem passado”. Mas serão então as redes sociais o novo time-killer?

Um dos artigos mais populares sobre este ponto é “The bleak truth about how we spend our time”, onde para responder à questão se sublinha a reflexão sobre o que é, afinal, um tempo bem passado:

What constitutes time well spent? According to the psychologist Mihaly Csikszentmihalyi it is when you achieve “flow — the state in which people are so involved in an activity that nothing else seems to matter; the experience itself is so enjoyable that people will do it even at great cost, for the sheer sake of doing it.”

(Caso se interesse mais a fundo pelo autor e tema, saiba que este psicólogo húngaro lançou precisamente o livro com o mesmo título: “Flow: The Psychology of Optimal Experience”).

No artigo de Stuart Whatley, as conclusões parecem de que o tempo livre, que afinal poderia ser preenchido com atividades que nos preenchem, está precisamente a sê-lo com atividades que nos despertam ainda mais ansiedade. Mas não deixa de ser um ardil que igualmente nos satisfaz, com tamanha velocidade com que nos revela quem viajou, que momentos felizes dos nossos amigos aconteceram, que notícias interessantes nos haviam escapado ou que belas imagens de novas receitas para podermos experimentar chegaram entretanto.

A reflexão deve ser pessoal. E a educação não deve deixar o tema de fora. A gestão do tempo, bem sabemos, é sempre difícil, por isso crítica na forma como a educamos e como ajudamos os nossos filhos.

Qual é a sua perceção? E do seu seu filho? E da esposa? Quanto tempo cada um passou hoje ao telemóvel? Quantas vezes olharam o ecrã?

Basta que instale uma das imensas aplicações grátis para o efeito (a RealizD é extremamente completa; para dados mais diretos experimente a Checky) durante uma semana e veja se há ou não surpresas. Depois disso, a reflexão continua. Mais do que o tempo que passamos nos nossos companheiros smartphones, é o que lá fazemos e com esse tempo que realmente importa.