Em março, uma frase do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde viria a tornar-se um slogan no combate à pandemia. O aviso “testem, testem, testem” surgiu durante uma conferência de imprensa e foi multiplicado por vários chefes de estado e epidemiologistas.

Com a comunidade científica a ganhar terreno na batalha contra o vírus, também o método de testagem se tornou mais diversificado. A TVI falou com o ex-bastonário da Ordem dos Médicos Germano de Sousa na tentativa de descodificar qual a melhor opção de testagem para despistar, ou verificar um contágio.

 

Testes serológicos

A primeira coisa que temos de entender, diz o especialista, é que “o vírus por si só não pode fazer nada. Morre em cima de qualquer material ao fim de algumas horas, precisando sempre de se reproduzir e multiplicar para conseguir sobreviver”. É aí, que surge a importância das 27 proteínas que envolvem o vírus e são responsáveis por entrar em contato com as células humanas, invadi-las e destruí-las.

Nesse momento, entram em funções os linfócitos B e T que identificam o organismo estranho, neste caso o vírus e estimulam o amadurecimento, tornando-se plasmócitos. Por sua vez, os plasmócitos libertam anticorpos, nomeadamente os das classes IgM e IgG.

Germano de Sousa explica que é neste espectro que se realizam os testes serológicos, que permitem a determinação quantitativa de anticorpos para o novo coronavírus no plasma, ou no soro humano.

Estes testes, afirma Germano, devem ser utilizados como uma “avaliação da resposta imunológica após uma infeção aguda documentada pelo teste de despiste (rRT-PCR)”, mas também por aqueles que não puderam ter acesso aos testes de despiste em tempo útil e possam ser “considerados eventuais hospedeiros do vírus”.

Entre os diferentes contextos, Germano de Sousa destaca que o teste serológico deve ser aplicado a:

  • pessoas assintomáticas que estiveram ou não em contacto com doentes infetados;

  • pessoas com sintomas ligeiro e resultados negativos no teste de despiste;

  • pessoas que estiveram em contacto com pacientes infetados, após período de quarentena.


 

Para Germano de Sousa, este teste tem a função principal de designar uma possível imunidade à covid-19, no entanto sublinha que ainda não se sabe a duração da mesma. “Estamos numa nuvem do não sei”.

Os testes serológicos não devem, alerta o especialista, ser usados para o diagnóstico da infeção pelo novo coronavírus.

Teste rRT-PCR

Estes testes moleculares, avisa o especialista, são o standard na identificação de uma infeção por SARS-CoV-2. O famoso teste da zaragatoa assusta alguns pelo método, mas é uma pesquisa de contágio em que nada interfere. “São 100% exatos”.

São feitos por profissionais de saúde que recolhem, com recurso a uma zaragatoa, uma amostra de produto através do nariz e até à nasofaringe. Esta amostra é depois analisada num laboratório certificado.

O resultado dos testes são, normalmente, conhecidos num período de 48 horas.

Este teste apenas funciona na sua totalidade a partir do terceiro dia de uma possível infeção. 

Só nesse momento, após o período de incubação, é que o vírus realiza cinco a dez cópias por microlitro de sangue - o suficiente para que a sua ação no organismo se torne detetável”, explica Germano de Sousa.

O especialista indica que estes testes devem ser aplicados a pessoas que desenvolvam um quadro respiratório agudo de tosse persistente ou agravamento da tosse habitual, febre com temperatura igual ou superior a 38.ºC ou dificuldade respiratória.
 

Testes antigénio ou "testes rápidos"

Germano de Sousa afirma que, embora “estejam na moda agora”, já existem na China desde abril e maio. No entanto, não eram vistos como um método a seguir já que produziam cerca de 25% de falsos negativos.

Isto acontece porque os testes de deteção de antigénio, por princípio, têm uma sensibilidade menor do que os testes moleculares (RT-PCR). Ainda assim, novos desenvolvimentos levaram a que a taxa de falsos negativos baixasse para 7%.

Isto é muito bonito, mas temos de considerar que estes testes resultam, mas apenas numa janela muito curta”, afirma o especialista, explicando que reagem só durante os sete dias a seguir ao aparecimento de sintomas.

O especialista defende que estes testes devem ser disponibilizados nas escolas, de forma a “despistar uma febre de um caso positivo”, mas também em creches, fábricas e em lares. Tudo porque “são mais baratos e disponibilizam resultados em cerca de 20 minutos”.

No entanto, “há alguns terríveis problemas”, como afirma o especialista.

Por um lado, os assintomáticos não produzem cópias virais suficientes para que o teste acuse um contágio, por outro, “não podem ser vendidos nas farmácias porque nada garante que alguém que teste positivo comunique o resultado às autoridades.

Um resultado negativo também pode inspirar uma falsa noção de confiança e levar alguns a deixarem de usar máscara”, explica, sublinhando que “qualquer positivo que apareça tem de ser comunicado à DGS para que a autoridade sanitária registe os contactos que o indivíduo teve”.

O circuito, conclui Germano de Sousa, tem de continuar, “ou nada é controlado”.