A norte-americana Nina Martinez, de 35 anos, tornou-se na primeira doadora de órgãos viva com VIH positivo na história da medicina, avança o jornal The Washington Post.

Na segunda-feira, os médicos do Hospital John Hopkins, em Baltimore, realizaram a cirurgia de transplante de um rim de Nina para um paciente que também é VIH positivo. Ambos estão a recuperar bem e o recetor, que prefere permanecer anónimo, não vai, pela primeira vez num ano, precisar de fazer hemodiálise.

O médico Dorry Segev, professor da Escola de Medicina da Universidade John Hopkins e cirurgião que realizou a operação de Martinez, disse à CNN que a cirurgia é histórica e que deve ser celebrada como uma evolução do tratamento do VIH .

Os médicos querem expandir a cirurgia para ao conjunto de órgãos disponíveis para transplantes. Além disso, acreditam que o procedimento pode trazer uma nova visão sobre o VIH , com menos preconceito.

Até 2013, as pessoas com VIH eram proibidas por lei de doar órgãos, nos Estados Unidos. Além disso, os médicos consideravam os transplantes impossíveis porque tanto o vírus quanto os remédios que combatem o VIH são tóxicos para os rins.

Tivemos que mostrar que certas pessoas com VIH podem ser saudáveis o suficiente para serem doadoras de rim e viver com apenas um rim", disse Segev.

Era o caso de Nina Martinez, que tem uma carga viral muito baixa e controlada. Adquiriu o vírus por uma transfusão de sangue quando tinha seis meses de idade. Na altura, os hospitais não verificavam a existência do vírus no sangue doado com a mesma precisão de hoje. Durante toda a sua vida, Martinez conviveu com o medo e o preconceito.

A sociedade encara pessoas como eu como gente que traz a morte. E eu não consigo ver uma maneira melhor de mostrar que pessoas como eu podem trazer a vida”, disse Nina em entrevista semanas antes do transplante.

Depois do Transplante

Deixar uma pessoa com VIH viver com apenas um rim era considerado muito perigoso. Mas um estudo realizado pela Universidade John Hopkins em 2017 com 42 mil pessoas demonstrou que o risco de desenvolver doenças renais graves era praticamente o mesmo entre um paciente VIH positivo e um não positivo mas que tivesse comportamentos de risco, como fumar por exemplo.

Antes da cirurgia de Nina, os médicos só transplantaram órgãos de doadores seropositivos mortos. Foram 116 procedimentos desde 2016, quando a nova lei entrou em vigor.

Agora, Martinez diz que a sua escolha vai ter efeitos nas listas de espera de transplantes.

Quando eu tiro um nome da lista, todos sobem. Com ou sem VIH. Existe uma escassez de órgãos muito grande neste país e esta é uma maneira concreta de fazer a diferença", afirmou Nina.