Uma mulher brasileira que realizou um transplante de útero de uma dadora morta deu à luz uma menina. De acordo com os médicos que anunciaram o resultado do procedimento, é o primeiro caso de sucesso de um transplante deste género.

De acordo com o estudo publicado na revista científica The Lancet, o procedimento médico envolveu a ligação das veias do útero da dadora às veias da recetora do transplante, bem como a ligação de artérias, ligamentos e da vagina.

Esta foi a primeira vez, após várias tentativas fracassadas nos Estados Unidos, República Checa e Turquia, que um transplante de útero a partir de uma dadora morta permitiu um nascimento.

O recurso a dadoras falecidas poderá ampliar consideravelmente o acesso a este tratamento por parte das mulheres que sofrem de esterilidade de origem uterina", afirmou o médico Dani Ejzenberg, um dos autores do estudo e o responsável pelo procedimento no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

A operação que aconteceu no Hospital Universitário de São Paulo, no Brasil, apresenta "várias vantagens em relação ao útero de uma doadora viva: o número potencial de doadoras é maior, o custo é menor e acarreta menos riscos para a doadora viva", afirmou um dos autores do estudo.

Para o professor Andrew Shennan, obstetra do Kings College de Londres, citado pela CNN, o procedimento "abre o caminho para a doação 'post mortem', como já é o caso para outros órgãos", o que "permitirá às mulheres que não podem conceber (...) engravidar sem depender de doadoras vivas ou de barrigas de aluguer".

Até ao momento, "a única gravidez decorrente de um transplante de útero retirado 'post mortem' ocorreu em 2011, na Turquia", tendo resultado num aborto espontâneo, lembrou o doutor Srdjan Saso, do departamento de obstetrícia do Imperial College de Londres, também em declarações à CNN.

O primeiro bebé nascido a partir de um transplante de útero de uma dadora viva ocorreu na Suécia, em 2013. Até ao momento, foram realizados 39 procedimentos deste género, dos quais 11 permitiram o nascimento de 11 bebés vivos.

Tudo sobre o procedimento médico

A mulher que recebeu o transplante nasceu sem útero, por causa de um defeito congénito chamado síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, um problema raro que afeta cerca de uma em cada 4500 mulheres e que resulta na má formação da vagina e do útero. De acordo com a CNN, a recetora do útero submeteu-se à colheita dos ovócitos antes do transplante.

O útero transplantado foi retirado de uma mulher de 45 anos que morreu na sequência de um AVC. 

O transplante ocorreu em setembro de 2016 e a mulher tinha, na altura, 32 anos. A cirurgia durou mais de 10 horas e 30 minutos e foi seguida de um tratamento imunossupressor para evitar a rejeição do órgão.

Cinco meses depois do transplante, o útero não mostrava sinais de rejeição, as ecografias estavam normais e a recetora do útero tinha uma menstruação regular. Foram então implantados no útero os ovócitos da mulher previamente retirados, fertilizados e congelados. Ao fim de sete meses e dez dias após o transplante, a gravidez foi confirmada.

A gravidez decorreu sem dificuldades e o bebé nasceu de cesariana ao fim de 35 semanas de gestação, no dia 15 de dezembro de 2017. Foi através de uma cesariana que a mulher deu à luz uma menina, em estado prematuro, com 2,550 quilos. Tanto a mãe como o bebé estavam em excelente estado de saúde e tiveram alta três dias depois do parto.

O útero foi retirado durante a cesariana para permitir a suspensão do tratamento imunossupressor.

Os autores do estudo publicado na revista científica The Lancet destacaram que o transplante de útero vindo de uma pessoa morta pode abrir novas possibilidades para a medicina.

Num outro artigo, publicado também na The Lancet, especialistas em fertilidade consideram que o processo tem de ser aperfeiçoado e que ainda é necessário investigar mais até que possa ser generalizado.