Quantos carregadores tem em casa? Telemóvel, computador, consola, auscultadores... a lista continua. A União Europeia estima que, nos últimos dez anos, os mais tecnológicos de nós poderão ter tido até 30 carregadores diferentes. O cenário, entretanto, melhorou, e hoje este número caiu para apenas três.

Ainda assim, Bruxelas quer mais, ou melhor, menos. A Comissão Europeia voltou a manifestar a intenção de implementar um carregador universal para todos os equipamentos vendidos nos 27 Estados-membros e o escolhido é o USB-C.

É uma grande confusão. É preciso dizer as coisas como elas são. Estamos a tentar resolver este problema”, explicou Thierry Breton, Comissário Europeu para o Mercado Interior.

A ideia é criar um carregador universal capaz de alimentar todos os smartphones, tablets, câmaras, auscultadores, colunas ou consolas.

No entanto, vale a pena realçar que o USB-C não é bem uma novidade. Este tipo de tecnologia já é algo com que se deve ter cruzado e tem vindo a ser adotado pela generalidade das empresas tecnológicas.

Em 2021, a maioria dos equipamentos eletrónicos é alimentado através de três tipos de carregadores: USB-C, micro-USB e lightning (iPhone e Mac). Apesar da redução, a União Europeia acredita que apenas um formato seria o ideal, quer para os consumidores quer para o planeta.

Logicamente, quem menos gostou da ideia foi a Apple. A gigante norte-americana tem um carregador próprio (lighting) e terá de adaptar praticamente toda a gama de aparelhos que vende.

Apesar de a proposta de Bruxelas ainda ter de ser negociada com os países membros e prever uma fase de transição de dois anos até entrar em vigor, a Apple já se manifestou contra. A gigante norte-americana acusa a União Europeia de estar a criar regulamentos que prejudicam a inovação tecnológica.

Vamos reunirmos com as partes interessadas para ajudar a encontrar uma solução que proteja os interesses do consumidor. (...) Continuamos preocupados com o facto desta regulamentação rígida, que exige apenas um tipo de carregador, sufoque a inovação, em vez de incentivá-la. Isto vai prejudicar os consumidores na Europa e em todo o mundo", reitera a Apple através de comunicado.

A posição da Apple não é nova. A empresa apregoa que a nova regulamentação é um entrave ao advento tecnológico desde 2009, ano em que a União Europeia defendeu pela primeira vez a criação de um carregador comum. 

Conheço estas empresas há anos. Cada vez que apresentamos uma proposta, lá começam elas a dizer: ‘Ah, será contra a inovação'. Não, não é contra a inovação. Não é contra ninguém. Como tudo que a Comissão faz, é para os consumidores", refere Thierry Breton.

Contudo, a proposta da Comissão Europeia não se fixa apenas na regulamentação de um carregador universal. Bruxelas quer ainda que o consumidor tenha a possibilidade de escolher entre comprar um equipamento com ou sem cabo e fornecimento de energia.

Também esta medida visa, sobretudo, a Apple que passou a vender telemóveis exclusivamente sem carregador a partir do iPhone 11.

Harmonizar a porta de carregamento (USB-C), harmonizar a tecnologia de carregamento rápido e a possibilidade de comprar um equipamento sem carregador", são as três medidas defendidas por Bruxelas.

De acordo com Bruxelas, em 2020, cerca de 420 milhões de telemóveis e equipamentos eletrónicos portáteis foram vendidos na União Europeia. Em média, os consumidores veem-se obrigados a ter pelo menos três tipos de carregadores, dois dos quais usam com regularidade.

Para além destes números, 38% dos utilizadores europeus garante que já teve problemas, pelo menos uma vez, em carregar o telemóvel por ninguém à sua volta ter um carregador compatível com o aparelho. O panorama atual não só é "inconveniente" como "dispendioso" para os consumidores, garante a Comissão Europeia. Bruxelas estima um gasto anual de 2,4 mil milhões de euros em carregadores.

A União Europeia acredita que o cenário atual esteja a gerar cerca de 11 mil toneladas de lixo eletrónico todos os anos.

Desde de 2009, quando a proposta de um carregador universal foi apresentada pela primeira vez, a Comissão Europeia tentou implementar o projeto em 2014 e 2018, em ambas as circunstâncias a proposta foi considerada "insatisfatória" na tentativa de melhorar a conveniência para o consumidor e na redução de lixo eletrónico.

Nuno Mandeiro