A caça, a agricultura e o movimento global de pessoas para cidades causaram declínios estruturais na biodiversidade e aumentaram o risco de vírus e doenças perigosas, como a Covid-19, passarem de animais para humanos. A conclusão é de um estudo publicado pela revista científica Proceedings B of the Royal Society. Os cientistas australianos e norte-americanos que realizaram a investigação chegaram a uma lista dos animais cuja probabilidade de partilharem doenças com os seres humanos é maior, tendo em conta os 142 vírus conhecidos por terem sido transmitidos dos primeiros para os segundos.

Dos seres vives domesticados, os cavalos são o animal com quem o homem mais vírus partilha, depois vêm os porcos, as vacas, as ovelhas, os cães e os gatos.

Dos animais selvagens, destaque para os ratos, os morcegos, os primatas e, no fim da lista, as lebres.

O trabalho científico conclui que o risco de contágio de vírus de animais para humanos é maior quando estão em causas espécies ameaçadas, cuja população tenha diminuído drasticamente devido à caça, ao comércio ou à perda de habitat. Significa, isto, que a culpa da transmissão é, em grande parte, do homem.

A disseminação de vírus a partir de animais é o resultado direto das nossas ações que envolvem a vida selvagem e o seu habitat. A consequência é que eles (os animais) estão a partilhar os seus vírus connosco. Numa infeliz convergência de muitos fatores, causa aquilo que estamos a viver agora", garantiu Christine Kreuder Johnson, a autora principal do estudo.

Precisamente por isto, cerca de duas centenas de associações e movimentos de defesa da vida selvagem escreveram para a Organização Mundial da Saúde a pedir que recomendasse aos países uma abordagem preventiva ao negócio de animais selvagens e determinasse a proibição tanto de mercados de animais selvagens, como do uso destes seres vivos na medicina tradicional.

Precisamos de estar realmente atentos à maneira como interagimos com a vida selvagem e às atividades que unem humanos e outros animais. Obviamente, não queremos voltar a ter pandemias a esta escala. Precisamos de encontrar uma maneira de coexistir em segurança com a vida selvagem, porque eles não têm falta de vírus para nos transmitir", conclui a cientista Christine Kreuder Johnson.

O SARS-CoV-2, conhecido como novo coronavírus, que provoca a doença Covid-19 é, precisamente, um dos casos de transmissão de uma doença de animais para humanos. Acredita-se que o vírus tenha origem em morcegos, por ter grande semelhança genética com os coronavírus encontrados nestes mamíferos, e terá estado envolvido num reservatório intermédio, provavelmente um pangolim, antes de ser transmitido ao homem.

Emanuel Monteiro