Começou a ver o Boavista pela mão do pai, mas sem saber porquê o seu coração já era portista, a ponto de em miúdo «andar à bulha» por causa do futebol.

Escritor e cronista nascido no Porto, em 1951, Álvaro Magalhães é autor de mais de 120 títulos de conto, poesia e ficção, publicados do Brasil à Coreia do Sul. Sobre o desporto-rei partilhou as suas reflexões no livro «A História Natural do Futebol» e captou a atenção do público juvenil pelas histórias da coleção «Os Indomáveis».

«Há quem pense que vamos ao futebol para nos divertirmos. Não, nós vamos para sofrer. A alegria no futebol é uma coisa rara. A regra é o sofrimento, a ansiedade, a angustia, a inquietação», diz na pele de indefetível portista com memórias do «Tribunal das Antas» e de Pedroto, com quem estabelece semelhanças e diferenças com Sérgio Conceição.

Na conversa com o Maisfutebol, há sorrisos e um lamento pela normalização dos duelos com bola como mero entretenimento, que transforma em consumidores de um espetáculo adeptos que deveriam tomar parte ativa num ritual.

«Cada jogo é a resolução de um conflito», defende. Até quando?

Qual a sua primeira memória de futebol?

Lembro-me de o meu pai, que era boavisteiro, me levar ao estádio quando eu era pequenino, com sete ou oito anos.

Contudo, tornou-se portista. Houve algum motivo para isso?

É um mistério. Já estudei muito o futebol em vários aspetos, mas nunca consegui perceber o que é que faz com que cada um de nós se vincule a determinado clube. O que seria normal era eu ir ver o Boavista e ficar boavisteiro. Mas o meu coração já era portista.

Quando se sentiu pela primeira vez do FC Porto?

A jogar futebol na rua com os outros miúdos. Já andava à bulha com colegas do Benfica ou do Sporting.

Onde morava?

Na Rua de São Dinis, no Porto, junto ao antigo cinema Vale Formoso.

Tinha algum ídolo?

Sabia a equipa toda do FC Porto de cor. Tinha cromos e jogava com eles em cima da mesa, reproduzindo os jogos. Desde muito pequenos éramos logo impregnados pela realidade futebolística, até mais do que agora. A nossa vida era jogar futebol na rua, ouvir os relatos, comprar cromos, simular jogos nas brincadeiras. Mas o meu ídolo nem era um jogador do FC Porto.

Era quem?

O Pirri, um jogador muito elegante do meio-campo do Real Madrid, que nessa altura era campeão da Europa. Sempre gostei de jogadores assim. Quando eu jogava, dizia que era o Pirri.

Como se tornou fã, se não o via jogar na TV?

Conhecia-o dos relatos, via imagens nos jornais… Não é como hoje, que há uma relação mais tu cá tu lá com os craques. Era uma relação mais distante e por isso era também mais mitificada.

Houve algum jogo visto no estádio que ainda hoje o marque em termos emocionais?

Vi ao vivo as finais de Viena e Gelsenkirchen [em que o FC Porto se sagrou campeão europeu], mas nenhuma me emocionou tanto como um jogo em que empatámos nas Antas com o Benfica [a 28 de maio de 1978], com um golo do Ademir na recarga a um livre, e que nos permitiu conquistar o campeonato, quebrando o jejum de 19 anos [na época 1977/78]. O Benfica estava a ganhar 1-0, graças a um autogolo logo no início, e falhou montes de vezes o segundo – o Humberto Coelho falha um golo isolado que até eu marcava –, até que o FC Porto marca no fim. Foi um jogo muito dramático. Arrasador. E uma alegria incrível porque não éramos campeões há tantos anos.

Hoje, prefere o futebol no estádio ou visto do sofá?

Tenho lugar cativo no Dragão, mas sou cada vez mais um teleadepto. O jogo no estádio é para se sentir, em casa é para ver. As repetições, os diferentes ângulos… Às vezes há ali uma falta a meio-campo e levanta-se toda a gente a dizer «não foi!» Como é que as pessoas sabem? Não se vê. Não veem, mas sentem. No estádio as pessoas veem com o coração. Há aquela cegueira… Lembro-me de sair do Dragão completamente arrasado como se tivesse corrido uma maratona. É um cansaço emocional.

Há quem pense que vamos ao futebol para nos divertirmos. Não, nós vamos ao futebol para sofrer. A alegria no futebol é uma coisa rara. A regra é o sofrimento, a ansiedade, a angústia, a inquietação.

E um sofrimento também?

Há quem pense que vamos ao futebol para nos divertirmos. Não, nós vamos ao futebol para sofrer. A alegria no futebol é uma coisa rara. A regra é o sofrimento, a ansiedade, a angústia, a inquietação. Porque é que a gente gosta disso? Porque nos anima. Porque nos dá vida. Vida anímica, irracional, inconsciente. E nós precisamos disso. Falta-nos esse território quase animal. Somos criaturas civilizadas, mas temos também uma zona animal, que alimentamos através do futebol.

Como o jornal «The Times» uma vez titulou, numa adaptação a uma frase do general prussiano Carl von Clausewitz: «O futebol é a continuação da guerra por outros meios.» Concorda?

É uma representação simbólica da guerra, que satisfaz uma necessidade, sem causar grandes danos. Como naquela história de duas tribos em África que passavam a sua vida a guerrear-se. Ensinaram-nos a jogar futebol e eles passaram a resolver o seu conflito simbolicamente, através do futebol.

É esse comportamento tribal do qual o futebol também trata?

O futebol tem uma cultura tribal. Agora vem o Benfica-FC Porto. Se houvesse público, víamos mesmo a representação dessa «guerra». Um exército aqui, outro ali. As claques em caixas de segurança a seguirem para o estádio. Depois, o jogo resolve o problema simbolicamente. Cada jogo é a resolução de um conflito.

Até ao próximo…

Satisfaz uma necessidade nossa. Estranhamente, no fim de um jogo, há qualquer coisa em nós que fica resolvida. Temos a mania que somos criaturas muito evoluídas, mas somos uma espécie de símios evoluídos, como dizia o Stephen Hawking,

O que faz com que, por vezes, o futebol resvale para um lado mais violento, não?

Há uma violência sobretudo simbólica, mas é tão intensa que há alturas em que extravasa e passa mesmo para o plano do confronto real, o que normalmente acontece com as claques.

O seu livro «A História Natural do Futebol» [Ed. Assírio & Alvim] faz outras analogias, como a comparação entre uma equipa de futebol e uma família.

É uma leitura sentimental da equipa. Isso era mais verdade quando não havia substituições e uma equipa começava e acabava o jogo com os mesmos onze. A equipa estava mais entregue à sua sorte, sem que o treinador pudesse intervir. Então, organizava-se matricialmente. A partir da mãe, que era o guarda-redes, o número 1, que é a origem, a fonte. O guarda-redes tem uma essência feminina dada a sua natureza. É o único jogador que pode tocar a bola com as mãos, tem a área como sua casa, a baliza é como a porta [porteria, em castelhano]. Mesmo os defesas têm uma essência de receber e de ajudar a «mãe» nas tarefas. O meio-campo é quando se dá a inflexão. Os médios são os jogadores através dos quais fala o pai ausente – o treinador. E depois há os avançados, que são completamente masculinos. São os que vão à caça, os que podem errar, os que recebem mais afeto. Ao guarda-redes não se perdoa nada, aos avançados perdoa-se que falhem golos. Basta marcar um, que podem falhar cinco ou seis.

A equipa hoje já não se organiza tanto sob essa base matricial?

Com o futebol moderno, tudo se tornou polivalente. Temos defesas a atacar, avançados a defender… Até à década de 1970, o futebol era mecânico. Com o «Futebol Total», da Holanda do Rinus Michels, a equipa deixou de funcionar como as fábricas, em que cada um faz uma função e todas se completam, e passou a ser dinâmica. Todos defendem, todos atacam. Um sai do seu lugar e outro vai ocupá-lo. Isso é o futebol a reproduzir os modelos da vida. O futebol acompanha sempre a evolução da realidade social. Essa polivalência acontece nas empresas. Antigamente, havia quem só fizesse um trabalho em concreto, hoje cada trabalhador pode ter diferentes funções e essa polivalência é valorizada. No meu livro, estudo essa relação dos modelos táticos até hoje, relacionando-os com os modelos sociais e de produção.

História Natural do Futebol - Livro - WOOK

Escreveu também a coleção «Os Indomáveis F.C.», que junta o futebol e a literatura infantil. Como surgiu essa ideia?

Foi uma proposta da Porto Editora, que surge da reflexão: «Os miúdos gostam tanto de futebol, poderíamos chamá-los para a leitura através dessa paixão que eles têm.» E, de facto, isso acontece. É uma forma de casar os dois interesses. Sobretudo nos rapazes, que são os mais relutantes à leitura. As raparigas são 90 por cento dos leitores jovens. Os livros da coleção «Os Indomáveis» não são só sobre futebol. Têm como personagens principais os miúdos que formaram uma equipa, mas depois há desde histórias de amor à adoção de crianças. O último que escrevi é a história de um menino refugiado, que os miúdos conhecem numa deslocação da equipa à Grécia. Ou seja, o está no futebol no centro, mas há vários temas que surgem e que têm que ver com a vida de qualquer adolescente.

Numa crónica recente escreveu que o futebol está refém do capitalismo, a propósito da criação da Superliga Europeia. Acha que só agora é que boa parte dos adeptos tomou essa consciência?

Há uma revolta dos adeptos, como esta recente dos do Manchester United, que só agora estão a tomar consciência do rumo contrário aos seus interesses que o futebol está a tomar. É tudo uma questão de dinheiro. Um dos grandes males que o capitalismo tem feito ao futebol é transformar aquilo que é um conflito e um ritual num espetáculo.

Não são conciliáveis, portanto.

Um espetáculo é algo que difere muito do jogo. O jogo de futebol afeta-nos profundamente. Não é como um espetáculo a que assistimos e saímos de lá incólumes. O que estão a destruir é essa capacidade de as pessoas sentirem e a transformar aquilo numa coisa inerte.

Isso é uma visão americana do desporto como indústria de entretenimento?

Claro. É uma americanização do desporto. É transformar aquilo num espetáculo para famílias. Eu, sinceramente, fico incomodado sempre que ouço alguém dizer que o futebol é um espetáculo. O futebol é exatamente o contrário disso. É uma coisa que mexe com as nossas sensações e emoções. O futebol transtorna as pessoas. Mas o que eles querem é transformar os adeptos, autênticos acólitos que participam na cerimónia, em espectadores amorfos. O futebol moderno tem feito tudo para destruir essa capacidade de os adeptos intervirem. Os estádios novos têm aqueles lugares em que parece que estamos no cinema, com as pessoas a portarem-se bem sem poderem fazer nada.

Considera que os novos estádios contribuem para que haja cada vez menos adeptos e mais consumidores?

Antigamente, nas Antas havia um setor da Superior (Sul), atrás da baliza, que se chamava «O Tribunal». As pessoas com um pendor mais crítico tinham tendência a juntar-se ali, até porque não havia lugares marcados. As equipas e o treinador quando saíam para o intervalo «O Tribunal» julgava-as, com assobios, aplausos, etc. Havia ali uma participação do público. Agora, onde é que está «O Tribunal» no Dragão? Não há nada. Há gente que está como no cinema, a comer pipocas ou a ver o telemóvel. Ou seja, estão a conseguir transformar a maioria dos adeptos em espectadores passivos.

Esse caminho é irreversível?

Acredito que sim.

No entanto, na Alemanha, os adeptos voltaram a ter setores para lugares em pé atrás das balizas.

Como a «Parede Amarela» do Borussia Dortmund. É um passo para recuperar algo do que foi perdido contra esta domesticação dos adeptos. Eles querem estar em pé, querem ser livres. Querem poder-se mexer. Querem dar saltos, ir de um lado para o outro, em vez de estarem amarrados ao estupor de uma cadeira. Pode haver umas conquistas pontuais, como essa, mas temo que possa ser como a resistência que precede a capitulação, antes de tornar os adeptos em consumidores e clientes passivos.

O Nuno Espírito Santo comportava-se bem demais. O Sérgio Conceição exagera um bocadinho, mas está no caminho certo. Nós ficamos ofendidos se a pessoa não reagir. É quase como se ganhar ou perder fosse indiferente. A gente aqui não quer disso.

Agora com a pandemia viu-se como a ausência influencia o rendimento das equipas, não concorda?

Ainda é verdade. Aliás, o FC Porto e o Benfica ressentem-se disso. Pensavam que os adeptos que estavam lá não contavam para nada? Pois ficam a saber que o apoio deles vale pontos. Eles jogam, participam, dão-lhes ânimo. Isso pode ter uma leitura quantitativa. Com público, Benfica e FC Porto teriam mais pontos nos jogos em casa.

Concorda que o FC Porto recuperou um pouco do seu sentimento tribal com o Sérgio Conceição?

Há esse lado sentimental, sim. O Sérgio Conceição tem a fama de ter recuperado a mística, tanto que até o comparam ao Pedroto.

Em sua opinião, faz sentido essa comparação?

Faz sentido no aspeto de ter uma ligação sentimental ao clube. Já tivemos treinadores benfiquistas, mas é mais fiável para nós haver um treinador que também é adepto. Pela paixão, pela entrega, por não ser só o profissional. Há aqueles treinadores que dizem «Eu sou um profissional», como se fosse uma grande coisa. O Sérgio Conceição é profissional, por um lado, e por outro também é amador, no sentido que «é aquele que ama». Mas difere muito do Pedroto em outros aspetos.

Quais?

O Pedroto era mais contido, mais cerebral, mais teórico.

Mas tanto um como o outro marcam a história do FC Porto por esta ligação com os adeptos.

Essa ligação sentimental faz com que muitas vezes vejamos o Sérgio como um de nós. Não é alguém que esteja a ganhar o seu dinheiro e a cumprir a sua obrigação. É como se fosse outro adepto também.

Há até essa comparação com o antecessor, o Nuno Espírito Santo, que sendo também portista não tinha propriamente essa relação de proximidade com os adeptos.

Comportava-se bem demais. [risos] O Sérgio Conceição exagera um bocadinho, mas está no caminho certo. É assim que deve ser. Nós ficamos ofendidos se a pessoa não reagir. É sinal de que não sente. Ora, se não sente, parece que não se importa muito. É quase como se ganhar ou perder fosse indiferente. A gente aqui não quer isso.

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Sérgio Pires