O preço do petróleo negativo, afinal o que significa para o comum dos mortais que tem um carro e que, mesmo em tempo de pandemia, precisa de se deslocar e, por isso, abastecê-lo com combustível?

Olhemos para o Mundo. Para quem extrai e exporta este cobiçado "ouro negro".

O mercado mundial de petróleo já estava a ser sobreabastecido desde que os Estados Unidos decidiram voltar à autosuficiencia, com aumento da produção própria baseada em novas explorações offshore (ao largo da costa) e no shale oil (um processo que passa por várias transformações através da extração no solo, de uma forma simplista). Isto do lado da oferta.

A pandemia de Covid-19 foi a gota de água de fez transbordar o copo ao parar boa parte do consumo mundial, do lado da procura.

Com a quebra da economia mundial, motivada pela pandemia Covid-19, a produção mundial passou dos 100 milhões de barris diários, atingidos em Janeiro deste ano, para apenas cerca de 70 em Abril. Logo, o mercado mundial passou a apresentar uma redução de mais de 30%. Por outro lado, a capacidade de armazenamento mundial de petróleo (comercial e em reservas estratégicas), que na sua totalidade atinge cerca de 6,7 biliões de barris, foi completamente atingida. As empresas exploradoras não têm capacidade de entrega da totalidade do petróleo extraído”, diz à TVI24 o professor José Caleia Rodrigues, presidente do departamento de Economia na Sociedade de Geografia de Lisboa.

O mercado fica inundado de crude. Na há capacidade para armazenar. E o preço afunda-se. O maior sinal vermelho chegou esta segunda-feira. O West Texas Intermediate (WTI), em Nova Iorque, caiu abaixo de zero, pela primeira vez na história, para o contrato de maio, deixando quem negoceia em pânico enquanto tentava evitar a entrega de barris físicos – ver mais à frente no artigo no subtítulo "Mas significa um preço de barril de petróleo negativo?"

“O Brent [negociado em Londres e que serve de referência às importações portuguesas] , apesar de não sofrer das mesmas consequências do WTI, acaba também por sair pressionado e pode sofrer potenciais maiores quedas à boleia do WTI”, admite Tiago Cardoso, responsável da corretora Infinox para a Península Ibérica. Foi o caso desta segunda-feira com “grandes custos para suportar a entrega física dos barris”, acrescenta.

Hoje, as perdas já se espalharam ao mês de junho. No dia em que expiram os contratos de maio WTI, os futuros de junho – que vencem a 19 de maio – já começam a sentir a pressão, seguindo a cair mais de 50% e a valer 8,51 dólares por barril depois de já terem estado a transacionar na casa dos 20 dólares, diz o Negócios.

Se continuarmos a ver a produção nos atuais valores e o consumo a decrescer, ao chegar ao final da maturidade do contrato de futuros de Junho, provavelmente irá acontecer o mesmo, pois torna-se bem mais caro ter de ir buscar o petróleo físico ao Oklahoma, que pagar para alguém ficar com os barris”, frisa Tiago Cardoso.

Como é que se sai daqui?

Para Tiago Cardoso, o aspeto que mais preocupa é não haver uma “plataforma de entendimento na OPEP+ [o acordo firmado entre a OPEP, liderada pela Arábia Saudita [rei Salmán[, México, Rússia [Putin] e EUA [Trumpo]]. É verdade que alguns cortes estão feitos, mas é preciso muito mais para combater a grande redução de consumo com que estamos atualmente.”

Uma posição partilhada por João Queiroz, responsável do Online Banking do Banco Carregosa: “O ajuste que a OPEP fez recentemente e que englobou a Rússia e a Arábia Saudita não é suficiente para a mais lenta e progressiva reignição da economia que se avizinha e que torna os atuais stocks e armazenamento desequilibrados para o consumo que se estimava.”

À escala global as consequências são variáveis consoante a dependência de cada país desta matéria-prima. Para  os países dependentes da importação de petróleo, a despesa acaba por ser reduzida, “sobretudo para a China que está a atingir valores muito elevados de importação”, analisa José Caleia Rodrigues.

Já para os exportadores, sobretudo os de economias mais débeis (Venezuela, Angola, Brasil, etc.) “irão passar por grandes dificuldades económicas e financeiras. Estas poderão provocar fortes tensões sociais e políticas.”

Por outro lado, o equilíbrio de forças entre os Estados Unidos, China e Rússia poderá sofrer igualmente fortes impulsos. “A China sai como grande beneficiário. A Rússia irá deparar-se com grande dificuldade em manter os apoios sociais que estavam, em grande parte, a ser suportados pelas exportações de petróleo. Os Estados Unidos que estavam a caminhar a passos largos para a autosuficiência poderão vir a estabilizar a menor curto prazo”, conclui o professor.

Mas o significa um preço de barril de petróleo negativo?

Barris de petróleo a valores negativos, grosso modo, significam que quem vende está a pagar para que os potenciais compradores, no fecho do contrato, fiquem com o petróleo.

Os mercados mundiais transacionam futuros de barris - contratos a prazo (de compra ou de venda). Nada mais que uma moeda de troca que decidi, num determinado momento, quem fica com aqueles barris.

Confuso? Talvez, mas quando vemos o barril de petróleo derrapar de preço, temos de perceber, exatamente, o que significa para entendermos que o seu efeito não é direto, nem imediato, no preço que pagamos pelo litro de combustível para abastecermos o nosso carro na bomba de gasolina.

No do Brent, cada contrato representa 1.000 barris, e é denominado em dólares. Se a cotação é de $20.80 - às 10.30 desta terça-feira, segundo a Bloomberg -  o valor do contrato é de $20.800. Os contratos de futuros implicam a entrega destes barris, se o investidor ficar com a posição em carteira até ao seu vencimento (prazo em que termina a negociação). Ou seja, nessa data, são entregues a quem ficou com ele. 

Mas então, como é que alguém pode realizar lucros e prejuízos das negociações de futuros? André Neto Pires da XTB explica: "Os participantes do mercado fazem isso assumindo a posição oposta do mesmo volume. Por exemplo, se um investidor comprou 4 contratos de WTI, ele pode fechar essa posição vendendo 4 contratos de WTI (com a mesma validade). No caso de um mercado líquido, é fácil o encontro entre as duas partes do mercado para realizar essa compensação sem que haja a necessidade de realizar entrega física da mercadoria, uma vez que as posições são mutuamente anuladas. No entanto, o mercado de 20 de maio não foi nada líquido ontem. Todos estavam a vender e não havia compradores na véspera do vencimento. Os juros em aberto eram muito baixos (menos de 16 mil contratos) e o volume ainda mais baixo (apenas 2489!). Os produtores poderão não ter desejado desfazer-se dos seus negócios de hedge e efetivamente quererem entregar petróleo."

E acrescenta: "Outra explicação possível para os preços negativos é a venda adicional de petróleo por produtores dispostos a pagar para que alguém recolha o petróleo armazenado, a fim de libertar algum espaço de armazenamento para o petróleo atualmente produzido e evitar paragens de produção, que são sempre muito dispendiosas."

“O tema da cotação negativa é única na história e decorre de um fenómeno extraordinário que é o de não se possuir capacidade e armazenagem, e/ou os encargos com os inventários serem tão elevados que é necessário pagar o crude para os compradores ficarem com ele. Tal pode ser percepcionado pela maior quantidade de petroleiros que aguardam pela descarga, pelas reserva estratégicas poderem não abarcar este excesso resultante entre a produção e os atuais níveis de consumo”, explica João Queiroz. Reforçando, no entanto, que “continua a existir um considerável crescimento populacional e que uma boa parte dos mais de 7.5 mil milhões de habitantes do planeta irão retomar os seus circuitos e alguns hábitos de deslocações, com razoável grau de probabilidade assistiremos a um reequilíbrio.”

Mas o que ganha o bolso dos portugueses com isto?

O resultado do negócio movimenta petróleo para as refinarias de todo o mundo. Em Portugal não existe produção, pelo que a procura nacional da matéria-prima bruta é satisfeita com o recurso à importação para posterior refinação e transformação em produtos derivados, como seja as gasolinas, gasóleo, GPL ou fuelóleo, entre outros.

Como se consome menos, tal como a TVI24 noticiou a passada semana, com uma quebra que, no caso da gasolina já passava os 20% antes dos consumos finais, só em março, também pode haver margem para uma ligeira descida de preços finais. 

Veja também: Consumo de combustíveis trava a fundo, quebra na gasolina passa 20% em março

Mas matéria-prima é apenas uma das componentes do preço final,quando vamos abastecer - entre 30 e 40%. Acresce uma ínfima parte, deixada à rubrica Descarga, armazenamento e reservas. E cerca de 60% do Preço de Referência – aquele que determina o valor que o comerciante cobra na bomba, antes da sua margem - são impostos e isso só despende do Estado.

COMPOSIÇÃO DO PREÇO DE REFERÊNCIA

ISP e outros

Cotação internacional e frete

IVA

Descarga, armazenamento e reservas

Incorporação de biocombustíveis

“Eventualmente com a continuação da queda dos preços do petróleo, é possível vermos uma redução do preço do litro da gasolina, mas nada na mesma proporção com que o petróleo está”, acrescenta responsável da corretora Infinox para a Península Ibérica. Se teremos combustíveis “de graça na bomba?”: “Totalmente fora de questão!”

João Queiros reforça: “Tal será muto difícil atendendo que a corrente situação é transitória, existem encargos com a logística (refinação, transporte, seguros, margem de exploração e comercial) e os impostos que representam uma enorme carga e peso à boca da bomba (valores médios de € 0.70 na gasolina e € 0.60 no gasóleo).”

Até porque passado este momento, José Caleia Rodrigues acredita que o preço do petróleo “deverá voltar rapidamente a um patamar entre os 20 e os 30 dólares/barril.”

Gasolina simples 95 praticamente ao preço do gasóleo simples

Segundo os dados da Direção Geral de Energia e Geologia, esta segunda-feira o Preço de Venda ao Público (PVP), média nacional no Continente, do gasóleo simples era de 1,211 euros por litro, abaixo dos 1,225 euros por litro da semana anterior. O valor mais baixo desde 24 de julho de 2017, quando custava 1,198 euros por litro.

Pela mesma ordem de ideias, o preço da gasolina simples 95 era de 1,258 euros por litro, igual à semana anterior. Temos de recuar a 1 de fevereiro de 2016, quando custava 1,257 euros por litro, para encontrar um valor inferior.

Alda Martins