O presidente russo, Vladimir Putin, comentou hoje o caso do drone americano abatido pela força aérea iraniana, avisando os Estados Unidos para as consequências do uso da força contra o Irão.

Na habitual sessão televisiva anual, em que responde a perguntas do público em direto, Putin disse que uma intervenção militar dos EUA contra o Irão desencadearia uma escalada nas hostilidades, com resultados imprevisíveis.

Para Putin, tal significaria, “no mínimo, uma catástrofe para a região”.

O presidente russo destacou ainda que o Irão aguentou os termos do acordo nuclear, apesar da retirada unilateral dos Estados Unidos, considerando que as sanções norte-americanas contra Teerão são infundadas.

Estes comentários surgiram a propósito do caso do pequeno avião não tripulado da marinha norte-americana que foi abatido pela força aérea iraniana, sobre o qual, num comentário curto, feito, como habitualmente, na rede social Twitter, o presidente dos EUA, Donald Trump, escreveu que “o Irão cometeu um enorme erro!”.

Segundo um comunicado do Pentágono, o drone foi abatido quando se encontrava em “espaço aéreo internacional, sobre o estreito de Ormuz”.

Washington considera que a reação do Irão foi “injustificada”, já que “as informações iranianas segundo as quais o engenho aéreo sobrevoava o Irão são falsas”.

Já o Irão, através da Press TV, canal de informação em inglês da televisão estatal nacional, foi o primeiro a informar que o drone "foi abatido pela força aérea", alegando violação do espaço aéreo, na província costeira de Hormozgan, no Sul do país.

O comandante dos Guardas da Revolução, general Qassem Soleimani, disse que o Irão “não tem qualquer intenção” de entrar em conflito com outra nação do mundo, mas garantiu que o país “está pronto para a guerra”.

Este incidente ocorre num contexto de crescente tensão entre o Irão e os Estados Unidos e depois de, na passada quinta-feira, dois petroleiros, um norueguês e um japonês, terem sido alvo de ataques no estreito de Ormuz.

O diferendo entre os Estados Unidos e o Irão dura há bastante tempo e a crispação aumentou desde que Donald Trump retirou os EUA, há um ano, do acordo nuclear internacional assinado, em 2015, entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança – Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China (mais a Alemanha) – e o Irão, restaurando sanções devastadoras para a economia iraniana.

Hoje, na já referida sessão televisiva, o presidente russo disse estar disponível para se reunir com Donald Trump, ainda que frisando não acreditar num aliviar da tensão entre Moscovo e Washington.

Trump já disse que se reunirá com Putin à margem do encontro do G-20 em Osaca, Japão, na próxima semana, mas ainda não pediu formalmente um encontro.

“O diálogo é sempre bom e necessário”, comentou Putin. “Se a parte americana mostrar interesse nisso, estamos naturalmente disponíveis para o diálogo, tanto quanto estejam os nossos parceiros”, acrescentou.

Rússia e Estados Unidos devem focar-se no controlo de armas, defendeu Putin, antecipando que, à aproximação das eleições presidenciais norte-americanas, as relações entre as duas potências “não serão fáceis”.

Refutando as acusações de interferência russa para favorecer a eleição de Donald Trump nas últimas eleições americanas, em 2016, Putin reconheceu, ao contrário, que a reeleição do atual presidente dos EUA tornará o aliviar da tensão entre os dois países menos provável.

Irão quer demonstrar “perante ONU” que Washington “mente”

O Irão anunciou hoje que pretende levar o caso do drone norte-americano “perante a ONU” para demonstrar que “os Estados Unidos mentem” e que Washington atacou a República Islâmica.

O anúncio foi feito pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohammad Javad Zarif, numa mensagem divulgada na rede social Twitter, na qual defende que o drone encontrava-se no espaço aéreo iraniano.

Vamos levar esta nova agressão perante a ONU e mostrar que os Estados Unidos mentem quando dizem que o drone estava sobre águas internacionais. Os Estados Unidos sujeitaram o Irão ao seu terrorismo económico, realizaram ações clandestinas contra nós e agora estão a invadir o nosso território”, escreveu Mohammad Javad Zarif.

O representante de Teerão concluiu a mensagem afirmando que as autoridades iranianas “não procuram a guerra”, ressalvando, no entanto, que irão “defender até ao fim” o céu, a terra e as águas territoriais do país.

O chefe das forças aéreas do Comando Central dos Estados Unidos (Centcom, na sigla em inglês), general Joseph Guastella, precisou esta tarde que o drone se encontrava a 34 quilómetros das costas iranianas quando foi abatido.

O drone de vigilância marítima RQ-4A Global Hawk “não violou o espaço aéreo iraniano em nenhum momento da sua missão”, afirmou o general norte-americano, durante uma teleconferência realizada a partir da base aérea de Al-Udeid, no Qatar.