Os Estados Unidos da América vão declarar o Antifa uma organização terrorista."

As palavras, em jeito de ameaça, são de Donald Trump e foram partilhadas no Twitter como resposta à onda de violência que tem abalado os Estados Unidos desde a morte do afro-americano George Floyd às mãos da polícia. O tweet depressa gerou polémica e várias interrogações: afinal, o que é o Antifa? É mesmo uma organização e pode ser declarada terrorista? É o Antifa que está por detrás dos motins nas ruas norte-americanas?

Ora, o Antifa dificilmente pode ser considerado uma organização no sentido de que não tem uma estrutura formal, não tem uma liderança centralizada, não tem um número de membros conhecido, não tem um manifesto. Sabe-se que é um movimento que inclui vários grupos ligados à extrema-esquerda, que se insurge contra o fascismo e que, muitas vezes, recorre à violência para combater forças autoritárias, racistas, xenófobas ou homofóbicas.

No entanto, mesmo que fosse uma organização real, Trump não podia simplesmente declará-la terrorista porque a legislação norte-americana não o permite: só grupos estrangeiros podem ser designados terroristas. Como escreve o The New Yok Times, não há uma lei para terrorismo doméstico. 

Mas, afinal, como surgiu o Antifa?

O movimento antifascista nasceu nos 20 e 30, na resistência a Hitler e Mussolini na Europa. Segundo o dicionário Merriam-Webster, a palavra “antifa” foi usada pela primeira vez em 1946 na oposição aos nazis após o final da Segunda Guerra Mundial.

Nos Estados Unidos, porém, foi nos últimos anos que começou a ser mais usada para juntar vários grupos antifascistas que surgiram após a eleição de Trump, em 2016, a ascensão da “alt-right” e o ressurgimento de supremacistas brancos como o Klu Klux Klan. Exemplo de um desses grupos antifascistas é o Rose City Antifa, do estado do Oregan, o mais antigo do país.

O Antifa está ligado a movimentos como o Occupy – que surgiu contra as desigualdades económicas em 2011, em Nova Iorque, junto a Wall Street -  e o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) – que ganhou especial destaque após a morte de dois afro-americanos em Ferguson em 2014.

Mark Bray, professor de História da Universidade de Dartmouth e um dos organizadores do movimento Occupy, escreveu o livro “Antifa: o Manual Antifascista”, que inclui várias entrevistas a antifascistas de todo o mundo. De acordo com Bray, o movimento Antifa faz pesquisas sobre os grupos de extrema-direita, usando a Internet ou o contacto pessoal, infiltra-se e expõe esses grupos e os seus membros. Muitas vezes, estes antifascistas recorrem à violência e “não se desculpam por isso”.

É o Antifa que está a causar pilhagens e motins?

A acusação de que o Antifa está por detrás da onda de violência nos Estados Unidos foi feita por Trump e secundada pelo procurador-geral William Barr, que disse que o FBI ia juntar-se às autoridades locais e estaduais para identificar manifestantes violentos, falando em "terrorismo doméstico".

Grupo radicais e agitadores estão a explorar a situação para prosseguirem com a sua agenda violenta e radical. A violência instigada e levada a cabo pelo Antifa e outros grupos similares ligada aos motins é terrorismo doméstico e será tratada da forma adequada", avisou o procurador.

Todavia, outros grupos extremistas foram associados aos tumultos. O The New York Times lembra que o governador do Minnesota, o democrata Tim Walz, por exemplo, sugeriu que grupos de supremacistas brancos infiltraram-se nos protestos e, em Nova Iorque, oficiais da polícia apontaram o dedo a grupos de anarquistas. Vários investigadores dizem ter identificado membros conhecidos de grupos de extrema-direita nas imagens das manifestações. 

Quem são afinal os responsáveis pelas pilhagens e pelos motins? “A verdade é que ninguém sabe”, disse Keith Ellison, procurador-geral do Minnesota e antigo congressista do Partido Democrata por Minneapolis na rúbrica “Meet the Press”, da NBC.

Muitos vídeos mostram pessoas que são muito suspeitas e que começaram realmente a partir janelas. Outras imagens mostram carros sem matrículas. Um comportamento muito suspeito”, destacou Ellison.

Para já as autoridades têm poucas provas e muitas dúvidas. Há, de facto, comportamentos suspeitos e grupos que parecem externos aos protestos pacíficos. Na mesma entrevista, Ellison deixou uma garantia: todos os materiais recolhidos vão ser investigados.

Os Estados Unidos vivem dias de grandes manifestações e tumultos contra a violência policial e o racismo, após a morte do afro-americano George Floyd às mãos da polícia. As manifestações começaram em Minneapolis, mas depressa alastraram a várias cidades norte-americanas.

Esta terça-feira, um protesto solidário contra o racismo uniu os utilizadores das redes sociais de todo o mundo, que partilharam imagens a negro sob o mote "BlackOutTuesday"

Sofia Santana