A organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgou esta terça-feira um relatório onde dá conta de graves problemas na gestão da covid-19 nos lares e centros de dia em Espanha, que resultou em "taxas de mortalidade horríveis" entre os idosos.

A conclusão surge depois de campanhas realizadas pela MSF em mais de 500 centros daquele género durante os primeiros meses da pandemia, e revela que o risco de contágio nos utentes destas instituições não diminuiu.

Com efeito, uma das conclusões mais sérias aponta para o aumento descontrolado dos contágios por causa da fragilidade no isolamento dos casos de infeção. Também são referidas falhas do sistema de saúde, sobretudo na prevenção e controlo dos casos.

O relatório, intitulado "Muito pouco, muito tarde: a inaceitável negligência aos idosos em lares a pandemia de covid-19 em Espanha", aponta que os lares de idosos, que são centros sociais, e não centros de saúde, não estavam preparados para lidar com a pandemia, referindo ainda uma "descoordenação institucional e uma falta de liderança" por parte das administrações.

Falhou a assistência efetiva a partir do sistema de saúde. Manter os doentes em espaços fechados e sem atenção médica adequada multiplicou os contágios, acelerou a mortalidade e produziu situações indignas e humanas", pode ler-se.

A MSF acrescenta ainda que os altos valores da mortalidade nos lares revela que "boa parte das dificuldades estiveram ligadas a deficiências estruturais, assim como à precariedade laboral e a cortes no setor".

Equipa dos Médicos Sem Fronteiras em ação de sensibilização

Um dos problemas mais referidos é a falta de formação para lidar com os equipamentos de proteção individual, como sejam as máscaras, luvas ou o álcool gel, mas a MSF também refere uma chegada tardia e escassa dos mesmos materiais.

A organização não governamental (ONG) menciona "graves problemas" no modelo de gestão e coordenação entre as empresas e as autoridades, o que terá resultado no "abandono" dos utentes e na "desproteção" dos funcionários, até porque os trabalhadores "não eram substituídos com o ritmo e rácio adequados".

Veja também: Covid-19: exército espanhol encontrou idosos mortos e abandonados em lares.

A campanha da MSF consistiu no apoio a instituições através de várias ações, tais como: separação dos pacientes por grupos; avaliação dos materiais e gestão dos circuitos e protocolos de segurança; treino para a prevenção e controlo das infeções; divulgação e treino da utilização dos equipamentos de proteção; treino sobre os planos de contingência; fornecimento de material caso fosse necessário.

Segundo o relatório daquela ONG, vários problemas foram levantados e comunicados ao governo desde o primeiro dia, numa campanha que começou pouco depois do início do estado de emergência em Espanha, decretado a 15 de março. Foram apontadas e comunicadas as seguintes falhas:

  • falta de informação, liderança e ações claras e determinadas;
  • deficiências no controlo e prevenção de infeções;
  • falta de capacidade e de reforço dos programas de cuidados primários;
  • falta de encaminhamento atempado para os hospitais;
  • insuficiência de material de proteção individual, de protocolos e de treino adequado para a utilização dos materiais;
  • falta de qualidade nos cuidados paliativos;
  • dificuldades na gestão das despedidas com os familiares;
  • necessidade de melhorar o cuidado e a dignidade no tratamento de pacientes;
  • estratégias de diagnóstico lentas e ineficazes;
  • falta de meios humanos e de treino.

Segundo o jornal El País, mais de 19 mil idosos morreram em instituições deste género desde o início da pandemia. Ao todo, Espanha regista mais de 359 mil casos de infeção, dos quais mais de 28 mil resultaram em mortes.

Testemunhos de quem viveu o pior

No relatório da MSF estão vários testemunhos de utentes e funcionários de lares, que dão um retrato da situação vivida naquelas instituições durante a pandemia.

Uma das pessoas a dar a cara foi Natalia, diretora de uma pequena residência privada, que falou à ONG sobre os tempos difíceis que viveu.

Um dia chegou uma equipa de cuidados paliativos enviados pelo Ministério da Saúde e colocaram a primeira injeção de sedação a uma das residentes que estava em estado muito grave. Antes de se irem embora, deixaram outras duas injeções preparadas para que eu as pudesse dar. Eu via as injeções e sabia que não podia fazê-lo, por muito simples que me tenham dito que era", conta.

Natalia conta que não estava preparada para uma situação como estas, antes de dizer que a doente a que se referiu, identificada como Ana, acabou por recuperar da doença, ainda que se encontre muito frágil.

Outra das histórias partilhadas é a de Andrés, chefe de uma corporação de bombeiros que dirigiu campanhas de desinfeção com a MSF, que relatou o medo de funcionários e utentes cada vez que entravam nas instituições: "Muitas vezes preferiam que os idosos ficassem fechados nos seus quartos, em vez de reagrupá-los por zonas", mesmo quando não se sabiam os resultados dos testes.

O resultado era terrível: uma sucessão de portas fechadas, por vezes à chave, e pessoas a baterem nas portas e a suplicarem para sair. Um horror", acrescentou.

Carmen também dirige uma pequena residência familiar, e explicou como foi feito o confinamento nos quartos da instituição: "Percebemos que havia utentes que não iam conseguir suportar. A Eugenia, por exemplo, deixou de comer e de se mexer. Passava horas a olhar pela janela".

Ação de desinfeção dos Médicos Sem Fronteiras

No caso específico de Eugenia, Carmen conta que temeu pela vida da mulher, e começou a tentar puxar por ela, para ver se conseguia motivá-la. Apesar dos esforços, Eugenia acabou por morrer, mas a diretora do lar sentiu que fez tudo o que podia.

Um dos relatos mais impressionantes é o de Luisa, uma funcionária de um lar que foi visitado por quatro vezes pelas equipas da MSF. Durante a conversa publicada no relatório, a mulher conta que, quando ligavam para o hospital, do outro lado lhe diziam muitas vezes que não podiam admitir pessoas de lares.

Em dias assim, as ambulâncias não chegavam e [os utentes] faleciam em poucas horas ou dias", explica.

António Guimarães