Agora foi a vez de Luc Montagnier, investigador francês laureado com o Nobel da Medicina em 2008 pelos avanços na pesquisa sobre o HIV, a cavalgar uma das principais teorias sobre a origem do novo coronavírus - já desmentida por especialistas. 

Em entrevista ao podcast do site francês Pourquoi docteur?, Montagnier disse acreditar que tudo teve origem no laboratório da cidade chinesa de Wuhan acidentalmente e que, após ter estudado o genoma do vírus, identificou neste sequências do HIV. O virologista classificou ainda de “história da carochinha”, a tese de que a contaminação começou num mercado. 

As declarações, de quinta-feira passada, estão a ser desmentidas por outros especialistas. Na última década, Montagnier esteve no centro de várias posições controversas, como defender a homeopatia ou, mais recentemente, contestar a vacinação. Com carreira no Instituto Pasteur de Paris, o investigador de 87 anos é hoje professor na universidade chinesa Jiao Tong, em Xangai.

No mês passado, um novo estudo publicado pela revista científica Nature já tinha desmentido a teoria sobre a origem laboratorial da pandemia e confirmado a transmissão natural do vírus, de um animal para a humanidade. 

Trump pressiona China

Ainda assim, a tese tem captado a atenção da Casa Branca. Na passada quarta-feira, o presidente dos Estados Unidos disse, em conferência de imprensa, que a sua Administração está a tentar comprovar se o vírus teve origem no laboratório de Wuhan. E numa entrevista à estação televisiva Fox News, imediatamente após as declarações de Donald Trump, o secretário de Estado norte-americano aumentou a pressão. “O governo chinês tem de confessar”, afirmou Mike Pompeo, a propósito daquilo que o regime de Pequim souber sobre o início do surto. E este sábado, Trump voltou à carga, sugerindo consequências para a China, se for provado que o país teve responsabilidades diretas na pandemia.

Em resposta, o diretor do laboratório de Wuhan em causa desmentiu as alegações que têm alimentado a polémica teoria. “É absolutamente impossível que o vírus tenha tido origem no nosso laboratório”, avançou Yuan Zhiming, numa entrevista à estação estatal chinesa CGTN. 

Macron pede explicações

Perante as insinuações que têm surgido por parte da Administração dos Estados Unidos, França entrou em cena. Em 2004, o então ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Michel Barnier, assinou um decreto que consolida um acordo com a China para a pesquisa na área das doenças infecciosas no laboratório de Wuhan. Também na semana passada, um representante do Palácio do Eliseu, citado pela agência de notícias Reuters, afirmou que “não existe qualquer prova factual que corrobore a informação que circula na imprensa americana sobre uma ligação entre as origens da Covid-19 e o trabalho do laboratório de Wuhan”. 

Não obstante, o presidente francês engrossou as incertezas, não sobre o início do surto em concreto, mas a forma como o regime chinês lidou com a pandemia. “Claramente existem coisas que aconteceram das quais não sabemos”, sentenciou Emmanuel Macron, em entrevista ao jornal britânico Financial Times.

Argumentando que Macron não tencionava tecer acusações diretas à China, o embaixador do país em França respondeu às declarações. “A China não está a esconder nada”, referiu Lu Shaye esta segunda-feira, à estação televisiva francesa BFMTV.

João Póvoa Marinheiro