E agora, Brasil? Várias celebridades que ainda não se tinham manifestado politicamente, começaram a fazê-lo depois da primeira volta das eleições presidenciais. Sabem que são influentes nas redes sociais, sentem que têm o dever de chamar a atenção dos seus compatriotas para o que consideram estar em causa. Esse posicionamento acabou por tornar a disputa Jair Bolsonaro vs. Fernando Haddad ainda mais acesa.

O apoio de Regina Duarte ao candidato de extrema-direita, em particular, não só exaltou - incendiou mesmo – as ânimos entre os artistas. A “namoradinha do Brasil” defende Bolsonaro com unhas e dentes, acredita que com ele o Brasil terá um "futuro melhor". O ator, escritor e humorista Gregório Dudivier chamou-a de “namoradinha da Ditadura”.

Dudivier descobriu, inclusive, uma fotografia da atriz com Fidel Castro. Vários artistas têm criticado a diva das novelas, como José de Abreu, defensor histórico do PT e que, no Twitter, tem rebatido os argumentos da atriz. 

 

 

Mas também houve quem a defendesse entre a classe, como Maitê Proença, que publicou um vídeo em nome da liberdade de opinião.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Você não tem MAIS RAZÃO que o vizinho, tem apenas OUTRA RAZÃO. Milito na causa ambiental. Essa é minha bandeira. Pelo planeta e pelo Brasil, não só o de agora, mas o Brasil dos nossos filhos e netos. Nas outras questões, opino quando entendo que posso contribuir. Já há opiniões demais e conhecimento de menos. Não vou levantar uma bandeira furada pq um amigo me mandou aquele plá esperto e torto. Quem sou eu se mudar de ideia cada vez que um colega me olhar enviesado? Quem sou eu se a minha necessidade de pertencer ao grupo for maior que o apreço que mantenho por meus ideais? Que a @reginaduarte possa se manifestar sem ser agredida, sobretudo, por seus pares. E que @paulobetti possa ter a mesma liberdade com o seu ponto de vista! O mundo sempre foi conservador e nunca gostou de quem pensa diferente. Atenas se enchia de motivos e guerreava com Sparta, japoneses com chineses, judeus com palestinos, pretos com brancos, protestantes com católicos, e até crianças de cinco anos fazem bullying com seus coleguinhas que parecem diferentes. Você não tem MAIS RAZÃO, apenas OUTRA RAZÃO. Minha humilde opinião. Rimou😉

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Deixem a Regina Duarte em paz. Ela não virou uma pessoa perversa da noite para o dia porque pensa diferente de você. Que ela possa ser a pessoa corajosa que ela está sendo e manifestar a sua opção, a sua opinião.”.

A atriz mostrou-se sensibilizada e firme no apoio ao candidato do PSL (Partido Social Liberal).

Sei que agora os tempos são de tuitadas e urgências. Quero deixar pra você e pra quem nos segue neste Insta, uma proposta de reflexão da socióloga Hannah Arendt: 'A pergunta sobre o sentido da política exige uma resposta tão simples e tão conclusiva em si que se poderia dizer que outras respostas estariam dispensadas por completo. A resposta é: O sentido da política é a liberdade'.".

Apoios também no futebol e entre artistas

A realidade é que Regina Duarte é só um exemplo entre muitos. Outras atrizes (Luiza Tomé e Monica Carvalho) e atores (Thiago Gagliasso e Theo Becker) também dão a mão a Bolsonaro, que conta ainda com outros artistas e desportistas no seu leque de apoiantes.

Exemplos: o cantor Gustavo Lima, que no início do ano defendeu o porte de armas, dizendo que "hoje em dia o Brasil só está desarmando o cidadão de bem"; os cantores sertanejos Eduardo CostaZezé Di Camargo e sua ex-mulher Zilu, que é mãe da compositora Wanessa Camargo. Zilu defendeu, à Folha de S.Paulo, que o Brasil precisa de um choque de realidade. E que esse choque de realidade tem de ser feito por via da eleição de um presidente como aconteceu nos Estados Unidos, com Donald Trump. Alguém que, disse, possa pensar primeiro nos brasileiros.

No desporto, os apoios vão desde Ronaldinho Gaúcho - que publicou uma fotografia com a camisola da seleção brasileira e o número 17, numa alusão ao número de Bolsonaro no boletim de vot - a outros jogadores de futebol como Felipe Melo e Rivaldo.

O ex-piloto de Fórmula 1 Emerson Fittipaldi, além de mostrar publicamente o seu apoio a Bolsonaro, chegou mesmo a visitá-lo no hospital, em setembro, depois da facada que levou.

O lutador José Aldo é outro dos desportistas que contrariam o movimento #EleNão e publicou já uma fotografia com “ele sim”, no dia da primeira volta, a 7 de outubro.

Quem está com Haddad

Há muitos famosos que não se manifestam publicamente sobre quem apoiam ou deixam de apoiar. No meio artístico, porém, e ao contrário de Regina Duarte e de alguns casos, outros há que até podem ter apoiado outros candidatos - como Ciro Gomes ou Marina Silva - na primeira volta, mas agora não têm dúvidas em apoiar Fernando Haddad.

Daí a hashtag #EleNão. Há quem vá votar por exclusão de partes. O candidato do PT, partido que muitos brasileiros já não aguentam mais, será um mal menor para muitos. Corrupção, Lula, anos de crise são feridas ainda por sarar. Mas o que está em causa nestas presidenciais, frisam, é a Democracia.

Caetano Veloso, por exemplo, é do PT mas na primeira volta apoiou Ciro. Como quem passou ao segundo turno, como dizem os brasileiros, foram Bolsonaro (46%) e Haddad (29%),   #AgoraéHaddad para Caetano, que até publicou um vídeo no instagram com a vice do candidato do PT, Manuela D’Ávila.

Também Gilberto Gil apoia Haddad. Chico Buarque e Martinho da Vila são PT e foram visitar Lula à prisão.

Outros apoiaram Ciro e Guilherme Boulos, do PSOL, mas agora também estão com Haddad. Há caras bem conhecidas dos portugueses, como, Camila Pitanga, Patrícia Pillar, Maria Ribeiro ou Débora Falabella.

O petista – como dizem os brasileiros – também recolhe o apoio de Fábio Assunção, Alessandra Negrini, Drica Moraes e Renata Sorrah, para quem votar em Haddad é uma “questão de humanidade”.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Pela democracia! #haddad13 #fernandohaddad @fernandohaddadoficial

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A produtora Paula Lavigne, neta de um militar, é pró-Haddad. Sónia Braga, Letícia Sabatella e Zezé Polessa exigiram que o Tribunal Superior Eleitoral investigue a alegada compra de notícias falsas e contrárias ao PT, por parte de empresas apoiantes de Bolsonaro, e que foram disseminadas pelo Whatsapp. O que é crime no Brasil. 

O canal de comunicação, aqui, é muito importante, já que 66% dos brasileiros segundo o Instituto Datafolha) utiliza esta informação para partilhar informação política e, para mais de metade, é a partir dela que tem acesso a notícias (porque muitos não têm plafond para navegar na Internet para verificar e procurar mais informações). Ou seja, dão muitas vezes como verdade o que podem ser fake news. Entretanto, o TSE decidiu abrir uma investigação ao sucedido.

Há, ainda, um manifesto suprapartidário, lançado na última quinta-feira, contra Bolsonaro e pró-Haddad, que tem as assinaturas de grandes nomes da literatura brasileira (para além de Chico Buarque, Luís Fernando Veríssimo e Milton Hatoum, por exemplo) e dos cineastas Walter Salles e Arnaldo Jabor.

Wagner Moura, bem conhecido do público português por exemplo do filme Tropa de Elite e da série Narcos, publicou mesmo um vídeo, pedindo ao ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso e a Ciro Gomes para que se envolvam diretamente na campanha de Haddad.

Eu sou contra qualquer tipo de patrulha ideológica, mas nesse momento as pessoas precisam se posicionar [contra o] fascismo”.

O papel de influência

O posicionamento de pessoas com estatuto social, ativas nas redes sociais, pode ser determinante no sentido de voto dos brasileiros? Primeiro que tudo é preciso ter em conta que o país tem 147 milhões de eleitores e, destes, mais de 100 milhões são utilizadores de Internet.

À TVI24, José Nazareno, presidente do Instituto Mapa, no Brasil, que estuda o engajamento político digital, explicou que o apoio de figuras "notáveis" não chega "a determinar uma mobilização de transferência de voto que seja significativa".

Uma espécie de ódio, rejeição intensa dos políticos e da política não está a permitir que apoio até de outros presidenciáveis signifique uma mudança de rumo dos eleitores.".

O caso de Chico Buarque, por exemplo, que participou na campanha de Haddad, pode ser dado como exemplo:

É uma figura tao importante do ponto de vista artístico, mas não é um macroinfluenciador. Pelos nossos acompanhamentos, há macroinfluenciadores que não se fizeram presentes, ou se omitiram ou não tiveram a mesma receptividade [quando se posicionaram]".

Quem poderia ter esse papel? O especialista dá o exemplo de Luciano Huck , apresentador de televisão,, que não se posicionou, e também Neymar que é, sem sombra de dúvida, a personalidade com maior número de seguidores nas redes sociais entre os brasileiros, mas que também "não teve nenhuma participação política, nenhum pronunciamento".

Os movimentos nas redes sociais foram mais "protagonistas e decisivos como talvez não se esperava" do que as personalidades individualmente.

Uma coisa lhe parece certa: estas eleições são "muito diferentes" do que o Brasil alguma vez viveu. "Colocam os métodos tradicionais de pesquisa numa incógnita".

A mais recente sondagem da Datafolha antecipa 59% de votos para Bolsonaro e 41% para Haddad. Domingo, 28 de setembro, é a hora da verdade.