Testemunhos ouvidos no tribunal de Nova Iorque, que condenou o barão da droga "El Chapo", revelaram práticas macabras, luxos ostensivos e esquemas de corrupção que cimentavam o poder do chefe do Cartel de Sinaloa, de 61 anos, condenado por dez crimes, incluindo traáfico, posse ilegal de armas e lavagem de dinheiro.

Guzmán aguarda a sentença, provavelmente a prisão perpétua. Do julgamento, ficam relatos - nem sempre dados como provados - de práticas criminosas, que a página da BBC Brasil compilou.

  • Sala da morte em mansão

Ninguém saía daquela casa", foi o que disse Edgar Galvan, que, com Antonio "Jaguar" Marrufo, integrava o Cartel de Sinaloa. Ambos estão presos por posse ilegal de armas, sendo que o primeiro acusa o ex-colega de ser o exterminador de serviço, que mantinha uma "sala de morte" numa mansão no México.

Segundo Edgar, Antonio "Jaguar" Marrufo construiu aí um quarto com azulejos brancos e isolado acusticamente "para que nenhum som sequer fosse ouvido". Havia mesmo um ralo no meio, para escoar a água e facilitar a limpeza após as execuções.

O seu papel dentro da organização de "El Chapo" era a de fazer contrabando de armas dos Estados Unidos para o México, que Marrufo usava para "apagar" os rivais do cartel na região de Ciudad Juárez, onde vivia.

  • Violar meninas "dava-lhe vida"

O traficante colombiano Alex Cifuentes foi descrito como "braço direito" do chefe do cartel de Sinaloa e segundo os procuradores passou dois anos escondido com "El Chapo" nas montanhas do México. Foi quem revelou que Guzmán drogava e violava meninas, menores de 13 anos.

Uma mulher conhecida como comadre Maria enviava para "El Chapo" fotografias de meninas para que ele e os seus pudessem escolher. Por cinco mil dólares (4.400 euros), as vítimas eram enviadas para as montanhas, onde eram drogadas e violadas.

Os documentos dão conta de que "El Chapo" chamava as meninas de "minhas vitaminas" e dizia que as violações "dava-lhe vida".

A defesa do traficante afirmou no julgamento que as acusações são falsas.

  • Subornos a presidente do México

O mesmo Alex Cifuentes revelou que o ex-presidente mexicano Peña Nieto, que esteve à frente do governo entre 2012 e 2018, recebeu subornos de 100 milhões de dólares (aproximadamente 88,5 milhões de euros) de "El Chapo".

Segundo a testemunha, Peña Nieto teria entrado em contato com o barão da droga logo após assumir, em 2012, a presidência, pedindo 250 milhões de dólares (221 milhões de euros) para que as autoridades mexicanas deixassem de procurá-lo e persgui-lo. El Chapo ofereceu então 100 milhões ao político, que teria aceitado a oferta.

Peña Nieto não comentou publicamente a acusação, mas, no fim do ano passado, negou que tivesse recebido qualquer tipo de suborno do cartel.

  • Mulher e amantes controladas

"El Chapo" usava a mulher e as amantes para promover os seus negócios, segundo trocas de mensagens, captadas pelo FBI, que foram usadas como provas em tribunal.

Guzmán e a mulher Emma Coronel falavam sobre a educação das filhas com frequência. Numa das mensagens, "El Ckapo" afirma: "A nossa filha é destemida. Vou dar-lhe uma AK-47, para que possa andar com o pai".

Noutra mensagem, revelava à mulher que tinha fugido de uma emboscada da polícia e pedia-lhe que lhe fizesse chegar roupas novas, sapatos e tinta preta para tingir o bigode.

Guzmán acompanhava de perto a atividade de 50 pessoas através dos seus telefones e computadores, de acordo com Cristian Rodriguez, que prestava serviço informáticos para o barão da droga. Em tribunal, o técnico revelou que o patrão escutava o telemóvel das amantes, após falar com elas, para saber "o que diziam sobre ele".

  • Inimigos enterrados vivos

Num dos depoimentos mais macabros ouvidos durante o julgamento, Isaias Valdez Rios contou que dois ex-integrantes do cartel de Sinaloa teriam aderido à organização rival Los Zetas. Foram considerados traidores e capturados.

Eles ficaram num farrapo. Praticamente todos os ossos do corpo estavam partidos. Não conseguiam mexer-se. E Joaquín continuava a bater-lhes com um pau e uma arma", afirmou Valdez Rios.

Os dois homens teriam sido, então, levados para uma área onde havia uma grande fogueira, onde foram executados por "El Chapo" com tiros na cabeça. Os corpos foram depois queimados.

A mesma testemunha afirmou ainda que um terceiro homem assassinado pelo traficante se chamava Arellano Felix e era membro de um cartel rival.

Ele tinha queimaduras feitas com ferro em brasa nas costas, com a camisa colada nas costas. Tinha queimaduras feitas com um isqueiro de automóvel pelo corpo inteiro. Os pés foram queimados", contou o ex-guarda-costas no tribunal.

O homem teria sido então amarrado a uma estrutura de madeira durante vários dias e levado depois, amarrado e vendado, para um cemitério. A testemunha relatou que a vítima ainda respirava quando foi atirada para uma cova e enterrada viva.

  • Fuga nu e da prisão

Os segredos da fuga cinematográfica de "El Chapo" de uma prisão de segurança máxima no México em 2015 foram revelados por um ex-membro do cartel. Damaso Lopez disse que a esposa do chefe e os filhos do traficante estavam envolvidos desde o começo para retirá-lo da penitenciária de Altiplano.

Houve reuniões secretas, em 2014, em que Emma Coronel deu instruções detalhadas do marido aos que estavam encarregados de organizar a fuga: "Um túnel tinha que ser construído e deveriam começar o trabalho imediatamente".

Um dos filhos de "El Chapo" comprou uma casa ao lado da prisão e, a partir daí, começou-se a escavar o túnel. O chefe recebeu na cadeia um relógio com GPS para terem a a localização exata de cela.

O túnel de 1,6 quilómetros levou meses a ser concluído e "El Chapo" chegou a reclamar que a perfuração fazia muito barulho. Fugiu em julho de 2015, montado numa pequena mota adaptada para passar no buraco.

Outra de suas amantes, Lucero Guadalupe Sanchez Lopez, contou no tribunal como, em 2014, "El Chapo" fugiu completamente nu de fuzileiros navais mexicanos, que invadiram um seu esconderijo, usando um túnel construído por debaixo de uma banheira.

Dias depois da fuga, o traficante seria finalmente capturado pelas autoridades: também estava sem roupa, mas desta vez, ao lado da mulher, Emma Coronel.

  • Armas com diamantes e pontaria com bazuca

A fama de extravagância do barão da droga mexicano foi atestada pela sua coleção pessoal de armas, incluindo uma pistola cravejada de diamantes, com um monograma das suas iniciais - JGL. Teria ainda uma metralhadora AK-47 banhada a ouro.

A testemunha Jesús Zambada contou ainda no tribunal que Guzmán chegou a usar uma bazuca - arma usada para disparar granadas anticarro - para praticar tiro ao alvo e relaxar quando estava de férias, com a família em 2005.

  • Indelicadeza fatal

Jesús Zambada, no seu depoimento, afirmou que "El Chapo" teria matado o filho do líder de outro cartel porque não lhe teria apertado a mão, após um encontro entre Rodolfo Fuentes e Guzmán para negociar tréguas.

Quando ele saiu, Chapo estendeu-lhe a mão e disse: 'A gente se vê, amigo'. Rodolfo virou-lhe as costas e foi-se embora", declarou Zambada. Fuentes e a mulher foram mortos a tiro, perto de um cinema, pouco depois.

Outro ex-integrante do cartel de Sinaloa, que também foi testemunha no julgamento, Miguel Angel Martinez disse ter perguntado uma vez a "El Chapo" porque matava: "Respondeu-me: 'Ou a sua mãe vai chorar ou a mãe deles vai chorar'".

  • Mentira que levou à morte

Um ex-líder de outro cartel de drogas relatou ao júri que o narcotraficante teria matado o próprio primo depois de ele ter mentido e dito que estava fora da cidade. Juan Guzmán foi visto num parque perto de casa.

O facto de ele ter mentido deixou o meu compadre com raiva", afirmou Damaso Lopez Nunez.

Para fazer de Juan uma espécie de caso exemplar, "El Chapo" teria ordenado que ele fosse interrogado e assassinado. A secretária do rapaz, que estava com ele no momento, também foi morta.

Uma das amantes do traficante, Lucero Guadalupe Sanchez Lopez, disse no tribunal que se lembrava de estar com Chapo quando ele recebeu a notícia da morte do primo.

Ele disse que, dali em diante, quem quer que o traísse iria morrer também. Fosse parente ou mulher, iria morrer".

  • Saco azul para subornos

A testemunha Jesús Zambada relatou que os traficantes tinham 50 milhões de dólares (44,2 milhões de euros) num fundo destinado ao ex-secretário de Segurança Pública do México, García Luna, para corromper os oficiais que fossem indicados para chefiar operações policias.

A testemunha afirmou ainda ter dado a Luna, malas cheias de dinheiro. O ex-secretário nega as acusações.

Quando o ex-presidente da Câmara da Cidade do México, Gabriel Regino, estava prestes a ser nomeado, também teria sido subornado pelo cartel, de acordo com Zambada. Regino, que é professor, também nega as acusações.

  • Zoológico privado

Miguel Angel Martinez, que pertencia ao cartel, afirmou que o narcotraficante era rico ao ponto de ter um jardim zoológico privado, além de vários imóveis e bens de alto valor.

Construído no início dos anos 90, o zoológico abrigaria leões, tigres e crocodilos e seria equipado com um comboio que levava os visitantes a passear. Dentro da propriedade havia ainda uma casa com piscina e um court de ténis.