O Alto Representante da União Europeia (UE) admitiu esta segunda-feira críticas à atuação comunitária e da Organização Mundial de Saúde (OMS) relativamente à Covid-19, por não terem sido inicialmente rápidas nem eficientes, e defendeu uma avaliação pós-pandemia.

Claro que há críticas a fazer [à OMS], há críticas a fazer a todos. A UE também merece ser julgada porque a nossa atuação inicial não foi rápida, não foi clara, não foi sensível e, seguramente, também a OMS pode ser criticada”, declarou esta segunda-feira o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell.

Falando por videoconferência num debate sobre o impacto da pandemia, na comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento Europeu, o responsável notou, porém, que “as críticas não devem ser direcionadas à liderança da OMS, classificando-a como uma espécie de agência chinesa”, numa alusão às declarações feitas pelo Presidente norte-americano, Donald Trump.

Pode haver críticas, mas não ataques pessoais, […] isso não é forma de lidar com o problema nem de classificar esta grande organização internacional”, frisou Josep Borrell.

E, “em todo o caso, não é altura de fazer estas críticas”, insistiu.

Quando o problema for resolvido é que temos de avaliar como é que as coisas correram”, salientou Josep Borrell, reiterando que “não se combate pandemia cortando o apoio financeiro à OMS neste momento decisivo”, como anunciado por Donald Trump.

Há uma semana, o Presidente norte-americano anunciou que os Estados Unidos vão suspender a contribuição do país à OMS, justificando a decisão com a “má gestão e ocultação” da pandemia de Covid-19.

Donald Trump considerou que “o mundo recebeu muitas informações falsas sobre a transmissão e mortalidade” da Covid-19 por parte da OMS, instituição para a qual, referiu, os Estados Unidos contribuem com “400 a 500 milhões de dólares por ano” (entre 364 e 455 milhões de euros), em oposição aos cerca de 40 milhões de dólares (mais de 36 milhões de euros), ou “ainda menos”, que estimou como investimento da China naquela organização.

Falando esta segunda-feira aos eurodeputados, Josep Borrell notou que se pode “também discutir o surgimento da pandemia”.

Será que foi um cisne negro, algo que surgiu de forma inesperada, ou foi algo que poderíamos ter acautelado e previsto? Não penso que se trata de um cisne negro, não é algo que ninguém poderia ter esperado [porque] há relatórios dos serviços secretos norte-americanos, de há 10 anos, avisando para a possibilidade de isto acontecer e existem vídeos a circular na internet com o presidente Obama a alertar para isso mesmo”, elencou o chefe da diplomacia europeia.

Para Josep Borrell, esta pandemia é “uma clara consequência de não se ter prestado atenção aos problemas ambientais” e “uma reação da natureza ao comportamento humano”.

Não surgiu apenas porque um animal selvagem foi comido por um humano”, argumentou o responsável, pedindo mais preparação por temer que “esta não seja a última” doença deste género.

Josep Borrell antecipou também que, após a Covid-19, haverá “um aumento das tensões geopolíticas entre os Estados Unidos e a China”, pelo que defendeu que “a UE tem de agir” como mediadora.

E lembrou que, apesar da Covid-19, “nenhum dos problemas [diplomáticos] anteriores à crise desapareceram”, apontando “situações ainda mais sensíveis” em locais como a Líbia e o Iémen.

Não podemos dizer que a pandemia foi o motivo pelo qual deixámos de atuar”, adiantou Josep Borrell.

A nível global, a pandemia de Covid-19 já provocou mais de 165 mil mortos e infetou quase 2,5 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

/ CE