O homicídio de um funcionário de uma bomba de gasolina na Alemanha está a tomar proporções nacionais, chamando a atenção para o fenómeno negacionista, até porque o jovem de 20 anos foi morto depois de ter pedido a um cliente que colocasse a máscara.

O empregado, de apenas 20 anos, pediu ao cliente para colocar a máscara dentro do estabelecimento, de acordo com as regras em vigor, mas o homem recusou o pedido e saiu da loja indignado.

Cerca de hora e meia depois, regressou à gasolineira, desta vez com a máscara posta. No entanto, voltou a retirar a máscara e os dois voltaram a discutir sobre a situação. O cliente, que tinha uma arma escondida no bolso, acabou por disparar sobre o jovem, atingindo-o fatalmente na cabeça.

Numa altura em que a Alemanha se prepara para uma das eleições mais importantes da história, este é um tema que ganha dimensão nacional, e que já motivou mesmo palavras da chanceler alemã, que falou em "violência que deixa sem palavras".

O governo condena fortemente este assassínio", disse a porta-voz de Angela Merkel numa conferência de imprensa, denunciando esta "violência que deixa sem palavras" qualquer pessoa.

Os meios de comunicação alemães referem que este caso não é isolado, e que o fenómeno negacionista tem aumentado nos últimos meses. De resto, tanto os serviços secretos como a polícia já tinham alertado para a radicalização da sociedade neste tipo de casos. Antes do homicídio ocorrido na gasolineira de Idar-Oberstein, houve registo de outros ataques violentos, nomeadamente contra jornalistas que cobriam manifestações contra o governo de Angela Merkel e as restrições impostas.

Estes grupos acusam o governo alemão de cortar nas liberdades individuais, ao mesmo tempo que renunciam ao certificado digital de vacinação. Para isso, utilizam várias redes sociais e fóruns online. Um dos participantes era precisamente o homicida deste caso, que tinha atividade regular em conversas negacionistas e teorias da conspiração que são mantidas na Internet, ainda que não estivesse referenciado pela polícia.

Agora, e apontando às legislativas de 26 de setembro, vários candidatos perfilam-se na condenação do episódio. Um dos primeiros a reagir foi Olaf Scholz, atual ministro das Finanças e líder do SPD, o partido mais bem colocado, de acordo com as várias sondagens.

Estou comovido por alguém ser assassinado por querer proteger-se a si mesmo e aos outros", disse, acrescentando que a sociedade alemã se deve opor ao ódio.

Também a candidata dos Verdes, Annalena Baerbock, confessou-se preocupada com a "radicalização" destes grupos, definidos como Querdenker (que significa pensador transversal em alemão), pedindo que o ódio se enfrente de forma conjunta.

Quanto à CDU, partido de Angela Merkel, e que apresenta Armin Laschet como candidato às legislativas, foi alvo de várias críticas, depois de ter sido divulgado um vídeo em que aparece um membro dos Querdenker a interromper uma ação de campanha, enquanto uma voz afirma que o partido se caracteriza por falar com todos, incluindo "os que têm uma atitude crítica".

O presidente do Conselho de Ética da Alemanha criticou o partido democrata-cristão por continuar a partilhar o referido vídeo.

O governo alemão diz que o fenómeno está a diminuir em termos de população, mas admite que os Querdenker se estão a radicalizar. Uma porta-voz do executivo lamentou que estes grupos estejam a utilizar as redes sociais como meio de propagação da mensagem e como forma de "dividir a sociedade e gerar ódio e incitar à violência". Para a adminstração de Angela Merkel, o negacionismo vem acompanhado de uma onda de desinformação e de ideologias conspirativas que se alargaram nos últimos meses.

Manifestação do movimento Querdenker

De resto, o último relatório do gabinete federal para a proteção da Constituição alerta para a radicalização da extrema-direita, conotada com um aumento da violência durante a pandemia.

Quem ainda não condenou o caso foi a AfD, partido ligado à extrema-direita, e que está a ser criticado pelos outros partidos, que acusam a "Alternativa para a Alemanha" de ser "um agente de topo da radicalização".

Ao espalharem as suas alegações confusas durante a pandemia, a ala de direita extremista partilha responsabilidades na radicalização de certos grupos, incluindo o atacante de Idar-Oberstein", afirmou Konstantin Kuhle, porta-voz do partido FDP.

A CDU foi mais cautelosa, dizendo que é "demasiado fácil" ligar a AfD a este caso "horroroso". Ainda assim, o porta-voz do partido ainda liderado por Angela Merkel não tem dúvidas: "A AfD está a contribuir para um aumento da polarização na sociedade".

Quem não deixou passar o episódio em claro foi Clara Anne Bünger, fundadora da organização Igualdade de Direitos Além Fronteiras, que partilhou a lista de seguidores do atacante, que foi identificado como Mario N.

O movimento Querdenker foi fundado em Estugarda no ano de 2020 por Michael Ballweg, um administrador empresarial, que acabou por se dedicar à organização a tempo inteiro, acompanhando o crescimento do mesmo.

De forma alargada, o grupo inclui pessoas céticas, contra a vacinação ou manifestantes contra o confinamento. Juntos alegam que os governos federal e locais se serviram da pandemia para colocar em suspenso liberdades individuais.

O grupo tem uma vasta presença nas redes sociais, nomeadamente no Twitter, onde existem contas consoante as cidades.

António Guimarães