A atribuição dos Prémios Nobel não vai adotar quotas de género ou de etnia, garantiu o vice-presidente do Conselho de Administração da Fundação Nobel, Goran Hansson, que explica a decisão pelo receio de tal medida “prejudicar a legitimidade” dos premiados.

Em entrevista à AFP, o representante da fundação reconheceu que “muito poucas mulheres” são nomeadas para os Prémios Nobel, mas apontou que a distinção vai para “os mais merecedores”.

“Tomámos a decisão de não adotar quotas de género nem de etnia. Queremos que todos os galardoados sejam aceites (…) porque fizeram a descoberta mais importante e não por causa do seu género ou etnia. E isso está em linha com o testamento deixado por Alfred Nobel”, explicou o representante, referindo-se ao empresário que dedicou a sua fortuna aos Prémios Nobel.

Para Hansson, porém, esta situação “reflete as condições injustas na sociedade”, e salientou que “ainda há muito a fazer” nesse sentido, apelando à própria sociedade que “mude de atitude” face às mulheres que prosseguem estudos nas ciências.

“É preciso ter noção que apenas 10% dos professores na área das Ciências Sociais na Europa ocidental ou na América do Norte são mulheres”, referiu, acrescentando que esta percentagem é “ainda menor” na Ásia Oriental. 

A adoção de quotas de género já esteve, aliás, em discussão na Academia Sueca, adiantou o representante, acrescentando que a medida foi descartada por receio que possa “colocar em causa a legitimidade dos premiados”, sobretudo no caso das mulheres.

“No final, queremos dar o prémio a quem for considerado mais merecedor, quem fez contribuições mais importantes”, acrescentou.

Embora este ano nenhuma mulher tenha sido reconhecida com um Prémio Nobel na área das ciências, Hansson lembrou que, no ano passado, duas mulheres receberam o Prémio de Química (Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna), e o Prémio de Física foi para Andrea Ghez. No ano anterior, Esther Duflo foi distinguida na área das Ciências Económicas, acrescentou.

“Agora, não há dúvidas de que cientistas como Emmanuelle Charpentier ou Esther Duflo receberam o prémio porque fizeram as contribuições mais importantes”, frisou o responsável.

Segundo uma análise da TVI24, a diferença entre géneros não para de aumentar desde que Marie Curie fez história ao ganhar dois prémios Nobel, primeiro em 1903, ao vencer o da Física, pelas suas pesquisas acerca da radiação, e em 1911, pela descoberta dos elementos químicos rádio e polónio.

Ao todo, as mulheres foram distinguidas com o prestigiado prémio 60 vezes desde a sua criação, em 1901, muito abaixo dos 885 prémios atribuídos a homens.

Beatriz Céu