O ministro alemão do Interior, Horst Seehofer, definiu como "absolutamente irresponsável" a decisão da UEFA de realizar as meias-finais e final do Euro 2020 no Reino Unido, devido à prevalência da variante Delta e ao aumento de casos de covid-19 no país. Os três jogos realizam-se no estádio de Wembley, em Londres.

Suspeito que mais uma vez se trate de [interesses] comerciais”, disse Horst Seehofer aos jornalistas em Berlim, de acordo com o Finantial Times. “Mas os interesses comerciais não devem sobrepor-se à necessidade de proteger as pessoas contra a infeção.”

Seehofer criticou ainda a decisão do órgão regulador do futebol europeu, a UEFA, de permitir uma grande quantidade de público no Euro 2020. O ministro alemão lembrou que nos jogos realizados em Munique as autoridades impuseram regras rígidas e permitiram apenas 14 mil adeptos num estádio com capacidade para 80 mil.

É imperativo evitar o contacto e cumprir os regulamentos de higiene se quisermos impedir a propagação da covid-19.”

Esta não foi a única voz que se levantou contra a realização da final em Wembley. Já na semana passada, o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, tinha expressado publicamente o desejo de que a final “não aconteça em um país onde os contágios estão a crescer rapidamente”. E esta quinta-feira também Pascal Canfin, presidente da comissão do meio-ambiente do Parlamento Europeu, considerou a escolha de Wembley como "uma receita para a desgraça".

Espera-se que o estádio de Wembley receba 60 mil adeptos para a final da Euro 2020 a 11 de julho, o que representa cerca de 75% da capacidade do espaço e significativamente mais do que os pouco mais de 40 mil adeptos torcedores que tiveram permissão para assistir ao jogo Inglaterra x Alemanha naquele mesmo estádio.

OMS alerta para aumento de casos ligado ao Euro 2020

Multidões nos estádios de futebol ou em bares e outros locais nas cidades onde se realizam os jogos são um dos motivos do aumento de infeções por covid-19 na Europa, avisou a Organização Mundial de Saúde (OMS) esta quinta-feira, sublinhando que, depois de dez semanas em que o número de casos vinha a diminuir, assistimos na última semana a um crescimento de 10% no número de novos casos. 

Por isso, as cidades-sede dos últimos jogos do Euro 2020 de futebol devem garantir um melhor acompanhamento da movimentação dos adeptos, antes da sua chegada e após a saída dos estádios, recomenda a OMS.

“Precisamos de olhar muito para além dos estádios”, disse Catherine Smallwood, uma das responsáveis do Departamento de Emergência Sanitária da OMS para a Europa, durante uma conferência de imprensa, questionada sobre as recomendações face ao aumento de casos de infeção pelo novo coronavírus nas cidades que acolheram os jogos.

Precisamos ver como as pessoas chegam lá, se viajam em comboios ou autocarros lotados, se quando saem do estádios vão para a bares e pubs lotados para assistir aos jogos. São esses pequenos eventos contínuos que estão a impulsionar a disseminação do vírus", disse Smallwood.

"A preocupação com uma vaga de outono ainda existe, mas o que vemos agora é que pode acontecer ainda mais cedo", disse Smallwood.

Depois de a Escócia ter anunciado que cerca de 2 mil pessoas contraíram o vírus em eventos relacionados com o Euro 2020, as notícias que chegam de Londres (na Inglaterra) e de São Petersburgo (na Rússia) - onde se registaram 100 mortes por covid-19 por dia na última semana - indicam que o aumento das infeções está relacionado a deslocação de adeptos para ver jogos do Euro 2020.

Em resposta a estas preocupações, a UEFA disse numa declaração à Reuters que as medidas de mitigação nas instalações anfitriãs "estão totalmente alinhadas com os regulamentos estabelecidos pelas autoridades de saúde pública locais competentes" e descartou a hipótese de alterar a localização dos jogos previstos.

Itália preocupada com os adeptos britânicos

Entretanto, a Itália avisou os adeptos da Inglaterra que devem cumprir todas as regras de segurança se quiserem assistir ao jogo dos quartos de final em que a sua seleção participa e que se realiza em Roma no próximo sábado. 

Além de um teste negativo realizado no máximo 48 horas antes ou de comprovativo de vacinação, a Itália introduziu uma quarentena de cinco dias para os viajantes que visitaram a Grã-Bretanha nas duas semanas anteriores, uma medida que visa conter a propagação da variante Delta do coronavírus, altamente contagiosa.

Viajantes com estadias de curta duração e visitantes em trânsito estão isentos da quarentena, mas, segundo a Reuters, a embaixada italiana advertiu que isso “não se traduzirá automaticamente em permissão para entrar no estádio”. 

A ANSA, a agência de notícias italiana, cita fontes do Governo dizendo que a regra de quarentena de cinco dias para todos aqueles que chegam do Reino Unido deve ser "estritamente seguida" e que não haverá "exceções". Além disso, as autoridades já anunciaram uma operação de segurança especial para vigiar os adeptos nos transportes, nas ruas e no estádio, de forma a garantir que todos cumprem as regras de saúde pública.

Também as autoridades britânicas pediram às pessoas que não viajassem para países da lista âmbar, como a Itália. O porta-voz oficial do primeiro-ministro disse: "Obviamente, apreciamos como os adeptos fazem o possível para apoiar a seleção inglesa, mas precisamos equilibrar isso com a necessidade de proteger a saúde pública. Por isso, pedimos a todos que cumpras as medidas em vigor."

Estes são os próximos jogos do Euro 2020

QUARTOS DE FINAL

Sexta-feira, 2 de julho 

17.00 - Suíça - Espanha (em São Petersburgo) 

20.00 - Bélgica - Itália (em  Munique)

Sábado, 3 de Julho

17.00 - República Checa - Dinamarca (em Baku)

20.00 - Inglaterra - Ucrânia  (em Roma)

As meias-finais realizam-se a 6 e 7 de julho e a final a 11 de julho, em Londres.

Maria João Caetano