O ministro da Justiça e da Segurança Pública do Brasil, Sergio Moro, anunciou esta sexta-feira que pediu demissão do cargo que ocupa desde janeiro do ano passado, durante uma conferência de imprensa, em Brasília. Numa das declarações inciais, o começou por ser taxativo: "O presidente não me quer no cargo".

Sergio Moro acusou Jair Bolsonaro de estar a fazer uma "interferência politica na policia federal", na sequência da demissão do ex-chefe da Polícia Federal (PF) do país, Maurício Leite Valeixo, publicada esta sexta-feira de manhã no Diário Oficial da União.

Moro foi um dos principais membros do governo brasileiro e mantinha uma popularidade maior do que a do próprio chefe de estado, Jair Bolsonaro, com quem entrou em atrito algumas vezes, incluindo numa tentativa anterior de exoneração de Valeixo, que aconteceu em agosto do ano passado.

Depois de ter sido noticiado que Sergio Moro tinha imposto a condição de ter o controlo das nomeações dos mais altos cargos da polícia brasileira, entre os quais o cargo de diretor-geral da PF.

O ministro demissionário afirmou que a única condição que colocou para aceitar entrar no governo foi de que a sua família iria receber apoio financeiro caso lhe acontecesse alguma coisa.

Ainda assim, Sergio Moro afirma que lhe foi dada "carta branca" quanto à nomeação do diretor-geral da PF.

Prometeram-me carta branca para nomear [o diretor da Polícia Federal]”, disse.

Descrevendo o deteriorar da relação com o presidente brasileiro, Sergio Moro referiu que Jair Bolsonaro começou a insistir em trocas na PF, entre os quais vários superintendentes, algo que o então ministro da Justiça entendia não fazer sentido. Já depois, a insistência do chefe de estado do Brasil terá chegado ao diretor-geral.

Eu disse que precisava de uma causa, um erro grave. No entanto, eu vi que o trabalho do diretor-geral estava bem feito”, acrescentou.

Sergio Moro acusa Bolsonaro de querer acesso privilegiado a investigações judiciais

Segundo Sergio Moro, Jair Bolsonaro queria ter um diretor-geral em quem confiasse pessoalmente, alguém que estivesse sempre contactável e disponível para lhe fornecer informações relativas aos casos que eram acompanhados pela PF, alguns dos quais que envolviam os filhos ou aliados.

Esse não é o papel da PF”, afirmou Moro.

 

O Presidente disse-me, mais de uma vez, expressamente, que ele queria ter uma pessoa do contacto pessoal dele [para quem] ele pudesse ligar, [de quem] ele pudesse colher informações, [com quem] ele pudesse colher relatórios de inteligência. Seja o diretor [da polícia federal] seja um superintendente", acrescentou. 

Falando aos jornalistas, o ministro demissionário frisou que deixa o cargo porque Bolsonaro quebrou a promessa que lhe fez de que não iria interferir na autonomia da PF e do Ministério da Justiça.

Em primeiro lugar, “houve uma violação da promessa que me foi feita de carta branca [não interferência], em segundo lugar não havia uma causa [para a demissão de Valeixo]. Ficou claro que estaria havendo uma interferência política na Polícia Federal, o que gera um abalo e uma queda de credibilidade não [em relação] a mim, mas ao Governo", explicou Moro.

Relativamente à saída de Valeixo, Sergio Moro reiterou que não teve conhecimento da decisão, acrescentando que ficou a saber através do Diário Oficial da União. Aproveitou ainda para esclarecer que não tinha assinado o decreto de exoneração do diretor-geral.

Não tinha como aceitar esta substituição [na PF]”, disse.

Esta é a segunda demissão no governo de Jair Bolsonaro no espaço de oito dias, depois de Luiz Henrique Mandetta, antigo ministro da Saúde, ter deixado o cargo em plena pandemia de Covid-19.

António Guimarães / com Lusa