O músico Salvador Sobral, o primeiro a dar uma vitória a Portugal no Festival Eurovisão da Canção, em 2017, considera que o representante nacional deste ano, Conan Osíris, “tem tudo para ganhar”.

Acho que ele tem tudo para ganhar aquilo [o Festival Eurovisão da Canção], porque é impactante, é diferente, é estranho, e é o que as pessoas gostam naquilo. Aquilo é um espetáculo de entretenimento e é entretenimento puro. É chocante, tem tudo para ganhar”, afirmou Salvador Sobral em declarações à Lusa.

Para o músico, que venceu o concurso com “Amar pelos dois”, tema composto pela irmã Luísa Sobral, uma canção que encantou meio mundo, agora, “não é sobre a canção”.

Conan Osíris venceu a edição deste ano do Festival da Canção, tendo, na final, sido o preferido do público e do júri, com o tema “Telemóveis”, que interpretou e compôs.

Para Salvador Sobral, Conan Osíris “tem o mérito todo”, visto que “escreve as letras, escreve as músicas”.

Não é o que eu oiço no dia a dia, não é o meu estilo, mas ele se calhar também não compra a minha música, não vai ouvir a minha música, não lhe apetece.”

A vitória da Eurovisão em 2017 teve um impacto grande na carreira e na vida de Salvador Sobral que, de um momento para o outro, passou a ter mais concertos agendados, tanto em Portugal como no estrangeiro, muitos dos quais com lotação esgotada.

Ele e a irmã, Luísa Sobral, foram recebidos por milhares de pessoas no aeroporto de Lisboa, após a vitória em Kiev. Depois disso, Salvador e Luísa Sobral foram distinguidos com o Prémio Personalidade do Ano 2017, atribuído pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal (AIEP), e condecorados pelo Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, com o grau de comendadores da Ordem do Mérito.

Ainda em 2017, o músico foi um dos distinguidos pelos European Border Breakers Awards (EBBA), um prémio para artistas emergentes com sucesso na Europa.

Além disso, a vida pessoal do músico foi alvo de atenção da chamada ‘imprensa cor-de-rosa’.

Questionado se tem uma secreta esperança de que Conan Osíris vença o Festival Eurovisão da Canção para que as atenções deixem de estar concentradas, Salvador Sobral não fugiu à resposta.

Por acaso não sei bem como me sinto em relação a isso. Às vezes sinto isso, que se ele ganhasse tirava já o peso. Mas depois há o ‘ai assim vou ficar sem ser o único’, afinal todos somos um bocadinho narcisistas no fim do dia. Se calhar também tenho esse lado, por isso não sei bem.”

O Festival Eurovisão da Canção decorre em maio, em Telavive, Israel, depois de o país ter vencido o concurso do ano passado, em Lisboa, com a música “Toy”, interpretada por Neta.

Este ano, 41 países disputam o concurso. O representante de Portugal atua na primeira semifinal, marcada para 14 de maio. A segunda final decorre a 16 de maio e a final está marcada para dia 18 do mesmo mês.

O Comité de Solidariedade com a Palestina, o SOS Racismo e as Panteras Rosa apelaram a Conan Osíris para não ir a Telavive representar Portugal, em solidariedade com artistas palestinianos.

Numa carta enviada ao músico, aquelas organizações referem que “a escassos minutos de onde terá lugar o festival, Israel mantém um cerco ilegal a 1,8 milhões de palestinianos em Gaza, negando-lhes os direitos mais básicos.” Além disso, “também a escassos minutos de Telavive, 2,7 milhões de palestinianos da Cisjordânia vivem aprisionados por um muro de apartheid ilegal”, escreveram na missiva.

O apelo de Roger Waters a Conan Osíris

Também o músico Roger Waters dirigiu uma mensagem a Conan Osíris, apelando ao boicote ao Festival da Eurovisão em Telavive, em protesto pela ocupação israelita da Palestina.

Numa carta aberta na sua página oficial no Facebook, intitulada “Are You the one?” (És tu o tal?), dirigida a “Conan Osíris e aos outros 41 finalistas do Festival da Eurovisão”, o antigo músico dos Pink Floyd revelou que escreveu, “há alguns dias”, uma carta particular ao “jovem e talentoso cantor português”.

Roger Waters disse ter sido alertado por amigos de que “Osíris poderia juntar-se à vasta rede de artistas que estão a responder ao apelo palestiniano para boicotarem a Eurovisão”, recusando-se a “atuar perante uma audiência segregada, em Telavive, na final do Festival da Eurovisão, em maio”.

Waters afirmou que ouviu a música de Osíris e obteve uma tradução da letra, “bem profunda”, que era “sobre usar o telemóvel dele para fazer perguntas sobre a vida, a morte e o amor”.

Então, escrevi-lhe e sugeri-lhe que tinha a oportunidade de falar pela vida, sobre a morte e também pelos direitos humanos, sobre os erros humanos. Como? De pé, lado a lado com seus irmãos e irmãs oprimidos na Palestina. Ele pode demonstrar solidariedade aos 189 manifestantes desarmados mortos a tiros por atiradores de Israel em Gaza no ano passado, incluindo pelo menos 35 crianças”, disse o líder dos Pink Floyd.

Roger Waters sugeriu a Conan Osíris que se recuse “a participar no branqueamento cultural, o qual um recente relatório da ONU chama de crimes de guerra de Israel e possíveis crimes contra a humanidade, abstendo-se de providenciar a sua arte para branquear a sistemática limpeza étnica das comunidades indígenas palestinianas por Israel, para expandir e manter o seu Estado de ‘apartheid’”.

Lamentavelmente, segundo o músico, Conan não lhe respondeu, talvez porque, segundo “fontes confiáveis” para Waters, o cantor português terá sido “abordado pessoalmente e persuadido a ir à final por uma organização chamada Creative Community for Peace (CCfP)”, uma organização que o cofundador dos Pink Floyd afirma estar ligada “à propaganda do Governo de extrema-direita israelita”, e que usa “uma mistura de ‘bullying’, ameaças e promessas para atingir seus objetivos”.

Roger Waters considera que, entre os 42 finalistas da Eurovisão, o representante português é aquele que tem “amor suficiente no coração para se erguer e fazer a diferença”, ao “defender o lado certo da história”, bastando-lhe, para isso, “fazer a coisa certa” e ser "o tal".