As jornadas Parlamentares do PS, que terminaram, esta terça-feira, em Viseu, foram marcadas pelos ataques do líder da bancada, Carlos César, sobretudo dirigidos ao Bloco de Esquerda, com António Costa a optar antes pelo discurso da "obra" governativa.

Logo no começo do primeiro de dois dias das jornadas, na segunda-feira, em São Pedro do Sul, após uma visita a uma empresa agroalimentar desse município, o presidente do Grupo Parlamentar do PS não foi meigo com o partido de Catarina Martins a propósito das divergências em torno do processo de revisão da Lei de Bases da Saúde: "O Bloco de Esquerda não manda na Assembleia da República, nem no país", declarou.

Poucas horas depois, na abertura de um jantar com autarcas socialistas do distrito de Viseu, Carlos César reforçou a dose nas suas críticas ao insurgir-se contra um alegado sectarismo por parte deste parceiro da atual maioria parlamentar, defendendo nesse contexto a tese de que "só por partidarite" a atual Lei de Bases da Saúde deixará de ser aprovada em votação final global no parlamento.

Estas críticas do presidente do PS serviram-lhe depois de base para esta terça-feira, no seu segundo discurso de fundo destas jornadas parlamentares, dramatizar a questão política em jogo nas próximas eleições legislativas, alegando para o efeito que os socialistas precisam de alcançar em outubro uma "maioria expressiva" para se libertarem de "inércias" e de "bloqueios" ao desenvolvimento do seu projeto político.

Carlos César nunca falou num cenário de maioria absoluta - a palavra absoluta é ainda um "tabu" neste partido -, mas, ao mesmo tempo, teve também o cuidado de ressalvar que os atuais dirigentes socialistas aprenderam com os erros do passado (uma alusão ao período dos governos de Sócrates).

Mas mais, segundo César, os portugueses já se aperceberam que no PS se fez e se faz essa autocrítica. O PS, na perspetiva do seu líder parlamentar, interiorizou os erros cometidos nesse passado recente e recusa os "aventureirismos da extrema-esquerda" para não os repetir no futuro.

Esperava-se que no encerramento das Jornadas Parlamentares do PS o secretário-geral, António Costa, fornecesse algumas pistas sobre o futuro da atual solução política. Ou, melhor, que confirmasse ou não a linha de Carlos César de claro distanciamento face aos parceiros da atual maioria parlamentar de esquerda: Bloco de Esquerda, PCP e PEV.

Mas António Costa, neste capítulo, limitou-se a fazer um frio balanço de atividade, reafirmando que os resultados dos últimos quatro anos demonstraram que "valeu a pena" formar um Governo minoritário suportado no parlamento pelo Bloco de Esquerda, PCP e PEV. No final de contas, de acordo com a lógica de António Costa, nada se deve a estes partidos, porque "o PS cumpriu todos os compromissos" que com eles assumiu.

No seu discurso, em contrapartida, o primeiro-ministro empenhou-se sobretudo em negar a ideia de que nesta legislatura se limitou a gerir a conjuntura, a distribuir benesses, sem fazer qualquer reforma, alegando, pelo contrário, que lançou já "as bases do futuro".

Ao longo de mais de 30 minutos de intervenção, gastou cerca de um terço a apresentar dados de instituições internacionais de que Portugal estará na linha da frente do combate às alterações climáticas, que é dos países que mais investem em investigação e desenvolvimento, que vai chegar a um défice de 0,2% no final do ano, e que, prosseguindo o atual caminho, chegará ao final da próxima legislatura com uma dívida inferior a 100% do Produto Interno Bruto (PIB).

Nestes Jornadas Parlamentares, as últimas da presente legislatura, pouco ou nada se ouviu de relevante proveniente do chamado "coletivo da bancada".

Na sessão desta manhã, falaram cinco vice-presidentes da direção de César: João Paulo Correio, Carlos Pereira, Susana Amador, Jamila Madeira e Fernando Rocha Andrade - este último para procurar desmontar as críticas feitas ao Governo sobre o peso excessivo das cativações e da carga fiscal.

Alexandre Quintanilha, deputado independente, professor universitário e presidente da Comissão Parlamentar de Educação, pediu a palavra para, em pouco mais de dois minutos, pedir humildade aos socialistas. António Costa registou o apelo e disse depois concordar com ele.

Finalmente, Ascenso Simões, deputado eleito por Vila Real, antigo secretário de Estado e ex-crítico da atual liderança parlamentar, pediu a palavra para elogiar a figura política de Carlos César.