Esta quarta-feira, fica marcada pela morte súbita e inesperada de Jorge Coelho. O ex-ministro que assumiu as responsabilidades. O homem que "acreditava que a culpa não podia morrer solteira".

Durante mais de 15 anos, o histórico socialista fez parte do painel do programa Circulatura do Quadrado. Ao longo de mais 500 programas, o "Grande Jorge", como o moderador Carlos Andrade carinhosamente o cumprimentava, sentou-se ao lado de António Lobo Xavier e José Pacheco Pereira para comentar a atualidade nacional.

"Um abraço, Jorge", foi o mote para um programa especial, onde Jorge Coelho foi a figura central. Para lá do que as câmaras mostram, ficaram várias amizades e um forte apreço pelo ex-ministro de todos os que com ele se cruzaram.

Carlos Andrade, um dos mais experientes jornalistas portugueses e moderador da Circulatura do Quadrado há mais de 30 anos, lembrou Jorge Coelho como a "pessoa que amava tanto viver e viver sempre rodeado pelos amigos” e confessou que este foi programa que mais lhe custou fazer.

Em mais de 30 anos na moderação deste programa, é seguramente este o que mais me vai custar fazer. Um jornalista tem sempre dificuldade em dar a voz, em juntar a palavra morreu ao nome de um grande amigo. Hoje, morreu Jorge Coelho, uma pessoa que amava tanto viver e viver sempre rodeado pelos amigos”, confidenciou Carlos Andrade. 

 

Lobo Xavier explicou que tinha conversado com Jorge Coelho, esta quarta-feira, antes da viagem entre Penafiel e Queluz de Baixo. Revelando, que acabou por ser surpreendido a meio do percurso com a notícia.

O comentador da TVI confessou ainda que “se tivesse de eleger o mais surpreendente amigo feito na vida política seria o Jorge Coelho".

O ex-deputado do CDS recorda que Jorge Coelho "era um coração mole" e que nos bastidores do programa esta era uma brincadeira comum, porque "ele dizia que era amigo das pessoas de quem íamos falar".

Lobo Xavier acrescenta ainda que "Jorge Coelho realmente tinha uma legião de amigos, por onde ele passava fazia amigos profundos”.

Não consigo ainda ter a distância que a televisão e estes programas exigem para quando se recordam as pessoas. Portanto, lamento, não sou capaz de ter essa atitude formal, porque ainda hoje falei com ele. Antes de fazer a viagem de Penafiel para aqui. São coisas da nossa vida pessoal, mas são aquelas primeiras que me lembro e não me importo de as partilhar. Nós tínhamos marcado um almoço da Circulatura, a que ele se queria associar e queria combinar comigo o que queria levar, dos seus novos amores da produção do queijo e dos produtos relacionados. O Jorge Coelho queria levar a sua coroa de glória, o seu queijo da serra, mas, em minha casa, é especialmente apreciado e conhecido como o melhor do mundo: o requeijão. Eu queria fazer-lhe ver que interesseiramente também queria esse manjar que é mais apreciado. Fui surpreendido na viagem, tendo falado com ele há poucas horas", explica Lobo Xavier.

 

Lobo Xavier partilhou também a experiência de ser amigo de Jorge Coelho:"Amigo a quem ele não tinha nenhum ‘interesse’ na amizade comigo. Não tinha nada para lhe dar nem ele alguma vez me pediu o que quer que seja"

No entanto, o ex-deputado centrista revelou que "o contrário, já não é verdade, pedi várias vezes ajuda ao Jorge Coelho e tive sempre uma ajuda, consideração, apoio e carinho. Ás vezes aspetos da vida que vocês não podem imaginar o cuidado do Jorge Coelho".

O comentador garante que ao longo do tempo foi sempre surpreendido "com aquela lealdade e aquela prova desinteressada de amizade que ele me dedicava em vários campos".

Uma das últimas vezes, desloquei-me a Macau, sítio onde nunca tinha ido, e tinha uma reunião profissional com a presidente da associação de empresários local. Quando cheguei ela tinha uma carta do Jorge Coelho, escrita sobre mim, onde dizia coisas que mais ninguém dirá sobre mim. Portanto, com esta comoção que veem, recordo-o com uma saudade enorme e uma amizade insubstituível. Tínhamos o nosso almoço combinado para dentro de dias. Não o teremos. Mas, lembrá-lo-emos sempre”, conta Lobo Xavier.

Ana Catarina Mendes foi quem substituiu Jorge Coelho no painel do programa. A comentadora explicou que descobriu que iria ser a escolhida através de uma partida pregada pelo próprio e que, esta quarta-feira, o histórico socialista "pregou-nos outra partida a todos com esta morte".

A líder parlamentar do PS não escondeu o papel fulcral de Jorge Coelho no seu crescimento quer a nível político quer do ponto de vista humano.

O Jorge Coelho pregou-me uma partida quando falámos da minha vinda para aqui. Pregou-nos outra partida a todos com esta morte. Vou recordar sempre o Jorge Coelho solidário, o Jorge Coelho amigo, o Jorge Coelho que tinha uma alegria imensa nas coisas que fazia”, disse Ana Catarina Mendes.

 

José Pacheco Pereira garantiu que jamais esquecerá o "homem que cultivava um sentimento antigo que é o sentimento da amizade” e que o ex-ministro socialista “era particularmente sensível à pobreza”

O comentador salienta que Jorge Coelho "amava a sua terra, o Portugal que o fez crescer, e o PS, sem nunca pôr em causa a sua biografia".

Pacheco Pereira reitera que o homem que marcou a história do PS "era dedicado aos seus amigos e essa dedicação não pretendia nada em troca, um homem completamente gratuito nessa dedicação".

O comentador reiterou ainda que "Jorge Coelho tinha tudo. Era de facto um grande amigo”.

Como prova, aproveitou o momento para contar o episódio, nunca antes verbalizado, na despedida do quarteto da última estação televisiva em que haviam estado antes da TVI.

No último dia em que fizemos o programa na SIC, havia pessoas a chorar. Das maquilhadoras à realização, pessoas que eram nossas amigas e que tinham trabalhado connosco. A direção da SIC estava reunida e não veio sequer cumprimentar-nos e despedir-se de nós. Isso, foi uma coisa que o deixou magoado e furioso e que ele nunca esqueceu. Nem ele nem eu nem ninguém, que tenha passado por lá. Exatamente numa altura em que o sentimento da amizade é muitas vezes desvalorizado, são repelentes os comentários que eu já vi anónimos à notícia da sua morte. O primeiro comentário que alguém pôs num site que noticiou foi: ‘É assim. Não faz cá falta nenhuma’. Faz! Faz falta! Faz falta para pessoas como eu que não tinha nenhuma comunidade política”, revelou Pacheco Pereira.

 

Nuno Mandeiro