A comunidade académica da escola de Mirandela do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) lançou rosas brancas ao rio Tua numa homenagem ao estudante cabo-verdiano que morreu a 31 de dezembro.

Giovani Rodrigues era caloiro do curso de Design de Jogos Digitais na Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo (ESCAT) de Mirandela e foi encontrado caído na rua, em Bragança, na madrugada de 21 de dezembro, acabando por morrer dez dias depois num hospital do Porto.

Os colegas e restante comunidade académica homenagearam-no esta sexta-feira lançando ao rio Tua, em Mirandela, uma coroa de floras e 21 rosas brancas, o número equivalente à idade do jovem cabo-verdiano que se encontrava em Portugal há pouco mais de um mês.

A direção da Escola decidiu suspender as aulas entre as 11:30 e as 14:00 para permitir a participação na homenagem que decorreu na Ponte Velha sobre o rio Tua, no centro da cidade de Mirandela.

O choque com a notícia da morte do jovem foi expresso pelos colegas do curso, como Tiago Morais, que, tal como Giovani, chegou este ano a Mirandela para estudar e, apesar do pouco tempo que passaram estudantes, considerava-o “amigo”.

Os estudantes e restante comunidade condenam o sucedido, como sublinhou hoje Wanderley Antunes, presidente da Associação de Estudantes Africanos do IPB, que se juntou à homenagem apelando “acima de tudo à Justiça”.

“Que se faça justiça porque situações como esta não podem voltar a acontecer e quem fez tem de pagar pelo que fez e é isso que nós esperamos”, afirmou.

O dirigente vincou que existem atualmente 2.300 alunos africanos a estudar no IPB e os cabo-verdianos constituem a maior comunidade entre os mais de 3.000 alunos estrangeiros de 70 nacionalidades, que representam um terço do total dos estudantes do politécnico de Bragança.

“Para o número estar anualmente a crescer é sintomático de as coisas estarem a correr muito bem”, observou, afastando qualquer associação a “onda racial” neste caso.

A particularidade de a comunidade académica do IPB ser assente na multiculturalidade foi realçada pelo diretor da escola de Mirandela, Luís Pires.

“Este infortúnio trágico, do mais grave que pode acontecer, não nos pode desviar deste caminho. Que consigamos manter esse rumo com serenidade e não nos deixemos levar por ruído que possa surgir, acima de tudo esta partida do Giovani não pode ser em vão, nós temos que aprender também”, declarou.

A Câmara de Mirandela associou-se à homenagem representada pelo vice-presidente, José Miguel Cunha, para, como disse: “dar um sinal aos estudantes de que podem confiar em nós, podem confiar na nossa região porque aqui estão seguros e damos todas as condições para que o dia-a-dia deles possa ser normal”.

O autarca lembrou que a região de Bragança tem os índices de criminalidade mais baixos do país e salientou que “não é um acontecimento normal estes atos de violência”.

“Lamentamos e damos os nossos sentimentos a toda a família e ao povo de Cabo Verde por não conseguirmos que ele regressasse com o seu sonho, que era ter uma licenciatura”, transmitiu.

A morte do cabo-verdiano está associada a uma desavença num bar de Bragança com um elemento do grupo com quem Giovani saiu naquela noite. O que aconteceu depois da saída do bar ainda está a ser investigado pela Polícia Judiciária. Os amigos da vítima dizem que um grupo de “cerca de 15 pessoas” alegadamente do grupo de Bragança do outro interveniente, os aguardavam na rua “com cintos, paus e ferros”. Segundo os relatos, o alvo dos alegados agressores foi o cabo-verdiano. Os restantes cabo-verdianos terão tentado parar a situação e terá sido quando Giovani foi atingido com uma paulada na cabeça.

Por esclarecer continua o que se passou entre o momento da alegada agressão e o local onde Giovani foi encontrado caído no chão sozinho, mais de meio quilómetro e alguns minutos a pé do bar, e alguém chamou o 112 para um alegado alcoolizado caído na rua. A ocorrência ficou registada como “intoxicação”.

Só quando avaliaram a vítima é que os bombeiros se aperceberam do ferimento na cabeça. Depois de estabilizado no hospital de Bragança foi transferido para o hospital de Santo de António, no Porto, em coma induzido, do qual nunca acordou, acabando por morrer a 31 de dezembro.