Portugal pode chegar aos quatro mil casos diários de covid-19 nos próximos 12 a 15 dias. Esta é a conclusão do matemático Carlos Antunes, que alerta que a testagem está a “perder a sua eficácia”, o que se está a refletir na taxa de positividade, que está atualmente acima dos 3%.

Atualmente estamos numa tentativa de reação de aumentar a testagem, mas a testagem está a perder a sua eficácia e não está a ter capacidade de poder controlar o aumento da incidência. Isso vê-se na positividade. Estamos já acima dos 3% de positividade já com dados de hoje”, afirmou o investigador numa audição no parlamento.

Mais tarde, o especialista acabaria por apresentar as mesmas conclusões na TVI24, defendendo que as medidas devem ser tomadas com maior antecedência.

Basicamente, Portugal está a duplicar casos a cada 12 dias, numa taxa de crescimento que ronda os 6%.

Poderemos ter daqui a 12 dias, se se mantiver esta taxa, quatro mil casos por dia", disse o especialista, que aponta um índice de transmissibilidade (Rt) de 1,22 ao nível nacional, sendo que esse valor deve ser já de 1,3 na região Norte.

Esse mesmo valor do R(t) "dificilmente" vai chegar ao desejável valor de 1, o que coloca o país numa situação de crescimento da pandemia.

Sobre as novas restrições anunciadas esta quinta-feira, que englobam o recolher obrigatório em 45 concelhos, Carlos Antunes lembra que todos estes municípios estiveram na lista de alerta, não percebendo o tempo de espera para atuar.

Há três semanas sabíamos que Lisboa estava acima de 120 casos por 100 mil habitantes, e esperamos três semanas para atuar. O problema é inércia na decisão, temos de tomar a decisão certa no momento certo", referiu.

O investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) explicou que esta positividade pode ser vista de forma diferente em termos de número de casos detetados por cada 100 mil testes realizados.

Em finais de abril, por cada 100 mil testes, foram detetados cerca de 700 casos. Hoje os mesmos 100 mil testes detetam três mil casos, disse Carlos Antunes na Comissão Eventual para o acompanhamento da aplicação das medidas de resposta à covid-19, onde foi ouvido com outros especialistas sobre a evolução da pandemia, a pedido do PSD.

Salientou ainda que o risco é elevado a nível nacional e “muito elevado” em Lisboa e Vale do Tejo e Algarve, mas com o aumento da cobertura vacinal tornam-se “cada vez mais improváveis” os níveis de risco elevado ou muito elevado.

Relativamente às hospitalizações, o matemático afirmou que, em termos de unidade de cuidados intensivos, a ocupação mantém-se, não quebrando “os mínimos que foram alcançados em períodos anteriores aos da vacinação”.

No seu entender, esses mínimos são necessários “serem quebrados” para confirmar a tendência também decrescente da perigosidade relativamente aos internamentos de situações mais gravosas.

O aumento dos internamentos verificou-se nas enfermarias a partir de 20 de maio e nos cuidados intensivos apenas no início de junho.

Nos últimos dias, verificou-se na região de Lisboa e Vale uma estabilização dos cuidados intensivos entre 71 e 75 camas, mas mantendo-se próximo do “limiar da linha vermelha” nos cuidados intensivos que é de 80, 84 camas, que estão com uma ocupação de 24%, referiu.

O Algarve tem 33% dessa ocupação, enquanto a região Norte e Centro tem apenas uma ocupação de 5% a 6% com doentes covid-19, disse Carlos Antunes, observando que 60% desta ocupação é abaixo dos 60 anos e 42% abaixo dos 50.

Analisando o desconfinamento, Carlos Antunes considerou que foi demasiado rápido: “Podia ter sido iniciado mais cedo, mas tinha que ser mais lento”.

António Guimarães / AG