O coordenador do Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos analisou na TVI24 a atual situação da covid-19 em Portugal. Para Filipe Froes, e numa altura em que o nível de testagem atinge níveis muito acima da média, Portugal devia ter mantido o número de testes sempre elevado, coisa que não fez.

O especialista focou-se no novo Plano de Promocão da Operação da Estratégia de Testagem, que assenta em três eixos: testagem dirigida, programada e generalizada

É evidente que devíamos ter tido mais testes, até porque uma elevada taxa de positividade pode estar a refletir um número baixo de testes", afirmou.

Filipe Froes começou por criticar o plano na forma como foi apresentado: "ficou aquém do que eu estava à espera, é escrito com uma letra cinzenta, com uma dificuldade enorme em ler-se".

O também pneumologista entende que o problema começa logo no nome do plano: "O título diz tudo. Já não precisamos de promover a operacionalização, precisamos de critérios muito claros para saber a quem fazer e quando fazer [os testes]".

Questionado sobre se o plano é claro nestes pontos, Filipe Froes entende que não, lamentando, porque a "intervenção chave neste momento é o controlo da transmissão".

Aqui os testes são essenciais. A promoção da operacionalização ainda não operacionalizou", apontou, falando numa confusão sobre metodologias e práticas de testagem.

Relembrando a importância da testagem, Filipe Froes lamenta que o plano tenha sido apresentado já na terceira semana do desconfinamento, dizendo que essa divulgação deveria ter sido feita antes da reabertura da sociedade.

Não é na terceira fase que é apresentado. É antes do desconfinamento", afirmou.

Outro ponto onde Filipe Froes entende que as autoridades não estão a agir da melhor forma é na apresentação dos dados.

Concretamente sobre o índice de transmissibillidade (Rt), o especialista diz que o mesmo está a ser reportado com uma semana de atraso.

Recorde-se que o R(t), como a incidência, são os dois principais critérios do Governo para definir o desconfinamento. Depois de ter chegado a 1,05, o valor oficial atual encontra-se nos 0,98, mas são vários os especialistas que alertam para um constante atraso destes dados.

Estamos com um R(t) com uma semana de atraso. Na pandemia, um dia de atraso é imenso, dois dias é enorme, sete dias é correr o risco de fundamentar más decisões", explicou.

Ainda sobre os indicadores, Filipe Froes diz que também existe um atraso na divulgação dos internamentos, até porque os dados partilhados no boletim da Direção-Geral da Saúde podem não ser totalmente iguais à realidade.

Precisamos de números mais reais para fundamentar decisões. Temos de aproximar os dados da decisão", vincou.

Apesar destas falhas, o especialista saúde a campanha de vacinação que decorre em Portugal, adiantando que o país está perto de "imunizar a mortalidade" por covid-19, uma vez que avança com rapidez na vacinação dos mais idosos, o grupo mais frágil.

Dessa forma, Filipe Froes destaca o trabalho da vacinação, bem como a coordenação da task force: "Melhor era impossível. Esta vacinação tem abordado de forma metódica a vertente da imunidade de grupo".

Seguir-se-à a tentativa de imunizar os doentes que podem vir a sofrer de doença grave por covid-19, aquilo a que chama "imunidade de gravidade", e o pneumologista diz que o alargamento da vacinação a pessoas com comorbilidades é uma boa notícia.

António Guimarães