Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, afirmou, esta segunda-feira, que “não há nenhuma maternidade no Sul do país que não tenha problemas”, sendo que “na maioria dos casos os problemas são graves”.

O representante da Ordem começou por dizer que "os problemas que existem são muito mais complicados do que tem sido divulgado publicamente", porque todas as maternidades do Sul do país apresentam problemas graves.

O que terá de ser feito no verão é contratar colaboradores externos para colmatar os problemas de falta de funcionários. Esta situação é apelidada pela Ordem de “remendo”, porque é “tratar de uma situação em cima do joelho”.

A situação no imediato é contratar médicos”, afirmou Miguel Guimarães. A Ordem pede ainda para que as condições laborais sejam similares entre os médicos externos e de serviço.

Miguel Guimarães apontou como exemplo as maternidades dos hospitais de Faro, onde faltam nove especialistas, de Portimão, onde faltam 11, do Amadora-Sintra onde são precisos nove, do Santa Maria, em Lisboa, onde são necessários sete especialistas, e do Hospital São Francisco Xavier, onde faltam 16.

No total, são necessários em todo o país 150 especialistas em ginecologia e obstetrícia, dos quais 125 na região sul.

O bastonário da Ordem dos Médicos reuniu-se esta terça-feira com os diretores dos quatro maiores hospitais de Lisboa, para avaliar o possível encerramento rotativo das urgências de obstetrícia durante o verão. 

As declarações surgem no mesmo dia em que foi anunciado que a Maternidade Alfredo da Costa só tem anestesistas para cinco dias de urgências em agosto. 

No fim de semana foi ainda denunciada, pelos diretores de serviço, a "situação caótica" nas maternidades do norte so país. À semelhança do que já foi denunciado na região de Lisboa, também os hospitais do norte do país se queixam da falta de médicos obstetras durante os meses de julho, agosto e setembro.

Na capital, falou-se em encerrar alguma maternidades durante o período das férias de verão, mas esta possibilidade já foi afastada pela ministra da Saúde, Marta Temido, que esclareceu que está apenas a estudar a reorganização do trabalho nas quatro maternidades em Lisboa e que o que está a ser ponderado é apenas a posibilidade de, alternadamente ,um dos serviços não receber doentes encaminhados pelo INEM.

O Presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos, Alexandre Valentim Lourenço, defendeu, por seu turno, que “a lei tem de ser mudada e alterada” para permitir que os hospitais tenham forma de reter os profissionais.

Têm entrado especialistas em todos os hospitais, mas eles não os retêm. Saem ao fim de seis meses porque não têm carreira, não têm progressão e veem-se metidos numa parafernália desorganização que não permite a fixação destes médicos”, disse Alexandre Valentim Lourenço.

O responsável salientou que as maternidades mais periféricas, como as de Portalegre e de Beja, dependem “90 a 100% de médicos tarefeiros nas equipas de urgência” porque os seus médicos, que “são quatro ou cinco”, têm mais de 60 anos.

O que acontece é que muitos destes tarefeiros circulam de hospital em hospital a fazer horas suplementares pagas a um preço superior que podiam ser investidos no seu próprio trabalho a fazer urgências suplementares nos próprios hospitais”, contou Alexandre Valentim Lourenço.

Muitos destes médicos estão no quadro destes hospitais mas se “o hospital os remunera com dez euros à hora e o hospital a cinco quilómetros lhe paga 50 por motivo de tarefa, eles vão fazer a tarefa noutro hospital”, disse, contando que vários diretores de serviço se queixaram desta situação na reunião, que foi pedida pela OM na sequência do eventual fecho rotativo das urgências de obstetrícia de quatro hospitais de Lisboa.

Questionado se é necessário formar mais especialistas, Alexandre Valentim Lourenço afirmou que não, justificando que são formados “mais do que é necessário”.

Nós formamos 45 especialistas de obstetrícia por ano e pelas contas de estabilidade precisamos de 30, só que eles não se retêm no sistema nacional”, sustentou.

O bastonário dos médicos acrescentou que o Ministério da Saúde só tem aberto em média 30 vagas por ano. “Este facto tem de ser assumido de ministro para ministro e de Governo para Governo”, frisou.

Para Valentim Lourenço, tem de haver também “uma política de retenção dos médicos, mas essa não é para agora”.

Para agora, nós temos de resolver um problema imediato de julho, agosto, setembro, e temos de ter uma política de retenção para o próximo ano para não termos para o próximo ano de colocar mais remendos neste buraco”, vincou.